Desigualdade empurra mulheres para cesarianas, alerta Unicef

Pesquisa mostra que medo da dor, falta de informação, condições econômicas e limitações na assistência reduzem a autonomia das gestantes na escolha da via de parto.

A elevada taxa de cesarianas no Brasil não pode ser explicada apenas pela preferência das gestantes. Fatores psicológicos, sociais e estruturais exercem forte influência sobre a decisão, segundo pesquisa divulgada nesta segunda-feira (13) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Embora muitas mulheres iniciem a gravidez desejando o parto normal, dificuldades encontradas durante o pré-natal e na assistência hospitalar fazem com que parte delas termine submetida a uma cesariana. O medo da dor, a falta de informações, a influência familiar e a pouca autonomia diante das equipes médicas estão entre os principais fatores identificados.

A pesquisa, intitulada Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes, ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, em São Paulo e Belém. O levantamento contemplou pacientes das redes pública e privada.

Brasil registra índices elevados de cesarianas

A cesariana é uma cirurgia fundamental quando existe indicação médica e pode salvar a vida da mãe e do bebê. No entanto, por ser um procedimento cirúrgico complexo, também envolve riscos e exige um período maior de recuperação.

No Brasil, mais de 60% dos nascimentos ocorrem por cesariana. Na rede privada, essa proporção se aproxima de 90%, de acordo com dados oficiais citados pela Agência Brasil.

Em São Paulo, 56,19% dos nascimentos registrados em 2024 foram realizados por cesariana. Nos hospitais privados da capital paulista, o índice chegou a 71,05%.

Em Belém, as cesarianas representaram 69,28% dos nascimentos. Na rede particular, a taxa alcançou 80,41%.

As duas cidades possuem leis que permitem à gestante solicitar a cirurgia no momento do parto. Ainda assim, o estudo destaca que a decisão não ocorre de maneira isolada e sofre influência das condições sociais e da estrutura de atendimento disponível.

Medo da dor influencia escolha pela cesariana

Entre os fatores psicológicos, a recuperação mais rápida aparece como uma das principais razões para a escolha do parto normal. Em sentido contrário, o medo da dor contribui para que muitas gestantes considerem a cesariana mais segura ou previsível.

Esse receio costuma ser reforçado por relatos negativos de mães, avós, amigas e outras mulheres próximas. Para a especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, muitas dessas experiências descritas como traumáticas envolveram práticas desrespeitosas ou intervenções desnecessárias.

“Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia, vários procedimentos e intervenções que não eram necessárias, além de indução sem necessidade, estão muito presentes no imaginário das pessoas”, afirmou a especialista à Agência Brasil.

Segundo ela, experiências marcadas pela violência obstétrica ajudam a construir socialmente a ideia de que o parto normal é necessariamente sinônimo de sofrimento.

Falta de apoio pesa mais sobre usuárias do SUS

A desigualdade social também interfere diretamente na escolha da via de nascimento. Entre as usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), a preferência pelo parto normal muitas vezes está relacionada à necessidade de voltar rapidamente às atividades domésticas e aos cuidados com outros filhos.

“Essa escolha está muito relacionada à necessidade de uma recuperação rápida, porque muitas mulheres não têm uma rede de apoio para cuidar do bebê, dos outros filhos e da casa”, explicou Stephanie Amaral.

Entre as pacientes da rede privada, a falta de apoio após a cesariana praticamente não foi mencionada. Nesse grupo, as mulheres que optam pelo parto normal costumam destacar os benefícios para a mãe e para o bebê e, em alguns casos, contratam equipes particulares para acompanhar o nascimento.

O estudo também identificou que algumas usuárias do SUS escolhem a cesariana para realizar a laqueadura durante o mesmo procedimento. Essa decisão pode ocorrer mesmo quando a gestante reconhece os riscos da cirurgia e as dificuldades do pós-operatório.

Para o Unicef, a situação demonstra a necessidade de ampliar as orientações sobre métodos contraceptivos de longa duração disponíveis no SUS, como o dispositivo intrauterino (DIU) e o implante subdérmico. As mulheres também precisam ser informadas sobre a possibilidade de realizar a laqueadura depois de um parto vaginal ou fora do período gestacional.

Gestantes relatam pouca autonomia durante o parto

As equipes de saúde aparecem no levantamento como um dos elementos mais importantes para a decisão. Uma orientação adequada durante o pré-natal pode aumentar a segurança da gestante e favorecer uma escolha informada.

No entanto, participantes da pesquisa relataram receber informações superficiais sobre o trabalho de parto. Muitas também desconheciam o direito de elaborar um plano de parto com suas preferências, especialmente na rede pública.

O estudo encontrou ainda baixa participação em atividades de orientação, início tardio do pré-natal e dificuldades no acolhimento de gestantes adolescentes.

Entre as pacientes da rede privada, houve relatos de mulheres que trocaram de médico várias vezes após encontrarem profissionais resistentes à realização do parto vaginal.

Na rede pública, por outro lado, algumas gestantes demonstraram sentimento de impotência. Segundo Stephanie Amaral, elas acreditam que a decisão final será tomada pela equipe médica, independentemente de suas preferências.

“Para que criar expectativa sobre o parto se, no momento, vai acontecer o que a equipe médica quiser fazer?”, relatou a especialista ao reproduzir uma percepção recorrente entre as entrevistadas.

Acesso à analgesia ainda é desigual

A possibilidade de receber analgesia durante o trabalho de parto também diferencia as redes pública e privada. O recurso é amplamente oferecido em hospitais particulares, mas continua restrito a poucas unidades de referência do SUS.

Para o Unicef, garantir formas adequadas de controle da dor é essencial para assegurar um atendimento digno.

“O parto é imprevisível. Não sabemos quanto tempo vai durar, qual será o nível de dor tolerado pela mulher ou se ela precisará de analgesia para não entrar em sofrimento. Ter esse recurso disponível é uma questão de dignidade”, afirmou Stephanie.

Além de medicamentos, a pesquisa recomenda ampliar o uso de métodos não farmacológicos para o alívio da dor, como banhos, massagens, exercícios, mudanças de posição e acompanhamento de profissionais capacitados.

Unicef recomenda mudanças no pré-natal e nas maternidades

Entre as principais recomendações do Unicef está a qualificação do pré-natal, com informações claras sobre as fases do trabalho de parto, controle da dor, plano de parto, direitos das gestantes e planejamento reprodutivo.

O estudo também defende a inclusão de parceiros e acompanhantes nas orientações. A participação dessas pessoas deve servir como apoio à decisão da mulher, sem pressão ou substituição de sua vontade.

Outra recomendação é ampliar a atuação das doulas, que oferecem apoio físico, emocional e informativo antes e durante o parto. Mães, avós, parteiras e outras referências das comunidades também podem contribuir para combater informações incorretas e fortalecer práticas respeitosas.

O Unicef propõe ainda:

  • ampliar os Centros de Parto Normal e de Parto Humanizado;
  • garantir que as maternidades recebam e registrem o plano de parto;
  • vincular previamente a gestante à unidade onde ocorrerá o nascimento;
  • expandir o acesso à analgesia no SUS;
  • facilitar a realização de laqueadura depois do parto vaginal;
  • capacitar profissionais para o atendimento respeitoso;
  • revisar modelos de remuneração que possam estimular cesarianas sem indicação clínica;
  • divulgar indicadores de saúde materna e neonatal com transparência.

Campanha defende decisão informada e parto respeitoso

O Unicef também lançou a campanha Parto normal. Uma escolha que merece respeito. A iniciativa pretende estimular gestantes, familiares, profissionais de saúde e redes de apoio a refletirem sobre as pressões que interferem na escolha da via de nascimento.

Segundo a entidade, o objetivo não é impor um tipo de parto, mas garantir que cada mulher tenha acesso a informações confiáveis, atendimento seguro e respeito às suas decisões.

“A gente está falando de uma experiência que deve ser respeitosa e permanecer como algo importante para a mulher”, afirmou Stephanie Amaral.

A especialista ressalta que o parto pode ser intenso sem necessariamente se tornar traumático. Para isso, a gestante precisa ser ouvida, orientada e acolhida durante todo o processo.

Fonte: Agência Brasil.