Casos de coqueluche disparam no Brasil e voltam a causar mortes em crianças

Aumento de mais de 1200% acende alerta para vacinação infantil e de gestantes; doença volta a níveis de 2015

Os casos de coqueluche voltaram a crescer de forma preocupante no Brasil, especialmente entre crianças menores de 5 anos, segundo dados do Observatório de Saúde na Infância. Em 2024, o país registrou 2.152 ocorrências da doença, número mais alto em quase uma década — um aumento de mais de 1200% em relação aos anos anteriores.

Desse total, 665 crianças precisaram de internação, e 14 morreram, superando todas as mortes registradas entre 2019 e 2023. “Como explicar todas essas crianças que morreram de algo totalmente prevenível?”, questiona Patrícia Boccolini, coordenadora do Observatório.

Neste ano, até agosto de 2025, foram 1.148 casos e 577 internações, mostrando uma leve redução, mas ainda em níveis altos. A coqueluche, causada pela bactéria Bordetella pertussis, é uma infecção respiratória grave que pode ser prevenida com a vacinação.

Desigualdade nas coberturas vacinais preocupa

Os bebês devem receber três doses da vacina pentavalente aos 2, 4 e 6 meses, e gestantes precisam se imunizar com a DTPa em todas as gestações para proteger o recém-nascido. Porém, a cobertura vacinal ainda está abaixo da meta.

Segundo o Ministério da Saúde, 90% dos bebês e 86% das gestantes receberam as vacinas em 2024 — índices que superam os de 2013, mas ainda não alcançam a meta de 95%. “Os números nacionais escondem desigualdades locais. Há cidades com alta cobertura e outras muito baixas”, alerta Boccolini.

A doença volta a níveis de 2015

O total de casos de 2024 se aproxima do registrado em 2015, quando o Brasil teve mais de 2.300 notificações entre crianças pequenas. A partir de 2016, os números caíram, e o último ano com mais de mil registros havia sido 2019.

Mas o problema não é só brasileiro. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), nove países das Américas registraram mais de 18 mil casos e 128 mortes por coqueluche apenas nos primeiros sete meses de 2025.

Especialistas alertam para vacinação de gestantes

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, explica que a coqueluche segue ciclos naturais de alta e baixa. “Mesmo com melhora nas coberturas vacinais, como ainda não atingimos a meta, continuamos vendo aumento de casos”, afirma.

Cunha reforça que a imunização de gestantes é essencial: “O bebê só estará totalmente protegido após as três doses da vacina pentavalente, aos seis meses. Por isso, vacinar a gestante é a principal forma de proteger o recém-nascido.”

Falta de medo e desinformação

Para Boccolini, a queda da percepção de risco também contribui para o cenário atual. “Tem muita gente que nem sabe o que é coqueluche. Perdemos o medo da doença por causa do sucesso anterior das vacinas. Espero que esses números sirvam de alerta”, conclui.

Fontes: Agência Brasil, Fiocruz, Opas, Ministério da Saúde, Observatório de Saúde na Infância, SBIm.