Doença de Creutzfeldt-Jakob: entenda o caso Lito Sousa

Doença cerebral rara e de rápida progressão ganhou atenção após o diagnóstico do piloto e criador do canal Aviões e Músicas; atualmente não há cura, mas estudos buscam novos tratamentos.

A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurológica rara que provoca rápida degeneração do cérebro, ganhou repercussão após o diagnóstico do piloto e influenciador Lito Sousa, conhecido pelo canal Aviões e Músicas. A enfermidade afeta memória, pensamento, coordenação motora e outras funções neurológicas e, atualmente, não possui cura.

Segundo reportagem de Tâmara Freire, da Agência Brasil, publicada em 25 de agosto de 2026, menos de 100 casos suspeitos da doença são registrados anualmente no Brasil. Apesar dos avanços científicos, pesquisadores ainda tentam compreender por que a DCJ surge na maioria dos pacientes.

O que é a Doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença ocorre quando versões anormais de proteínas chamadas príons passam a se acumular no cérebro. Essas proteínas alteradas interferem no funcionamento dos neurônios e desencadeiam um processo progressivo de neurodegeneração.

De acordo com Tuane Vieira, professora do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma pequena parcela dos casos está associada a mutações genéticas. Há também ocorrências extremamente raras relacionadas a procedimentos médicos ou à exposição a tecidos contaminados.

Uma variante da doença já foi relacionada ao consumo de carne de animais contaminados pela encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como “mal da vaca louca”. Essa situação, porém, não representa a origem da maioria dos casos de DCJ.

Por que a doença avança tão rapidamente?

Na maior parte das ocorrências, a ciência ainda não sabe exatamente o que desencadeia o aparecimento das proteínas anormais. Uma das hipóteses investigadas é a possível relação entre o estresse provocado por determinadas infecções virais nas células e o acúmulo dessas proteínas, mas não há comprovação.

Tuane Vieira explica que um príon alterado pode modificar proteínas que inicialmente estavam normais. Com isso, cria-se uma espécie de reação em cadeia.

“Quando essa forma alterada encontra uma proteína com a forma certa, ela muda essa proteína certa para a forma errada. Aí vira um efeito dominó”, explicou a pesquisadora à Agência Brasil.

O acúmulo progressivo dessas proteínas provoca a morte de neurônios e, consequentemente, a deterioração acelerada das funções cerebrais.

Quais são os sintomas da DCJ?

Os sinais da Doença de Creutzfeldt-Jakob dependem das regiões do cérebro atingidas. Entre as manifestações mais frequentes estão perda de memória, alterações cognitivas, dificuldades de movimentação, problemas de comunicação e comprometimento da visão.

Segundo informações divulgadas pela esposa de Lito Sousa, Mila Seidl, o especialista em aviação permanece lúcido, mas passou a apresentar limitações nos movimentos e perda parcial da visão. Em vídeo divulgado pela família, ele também aparece com dificuldade para falar.

A DCJ ocorre com maior frequência em pessoas mais velhas, embora também possa atingir pacientes mais jovens. Lito Sousa tem 59 anos.

Segundo Tuane Vieira, o envelhecimento reduz a capacidade das células de corrigirem determinadas falhas, aumentando a possibilidade de desenvolvimento de doenças relacionadas ao acúmulo inadequado de proteínas.

Existe tratamento para a Doença de Creutzfeldt-Jakob?

Até o momento, não existe cura nem tratamento comprovado capaz de interromper a progressão da DCJ. Pesquisadores, porém, avaliam possíveis medicamentos que podem reduzir a formação das proteínas envolvidas no avanço da enfermidade.

Dois tratamentos experimentais estão sendo estudados nos Estados Unidos, conforme a Agência Brasil. Um deles é desenvolvido pela farmacêutica Ionis e outro pelo Broad Institute, instituição ligada às universidades Harvard e MIT.

A família de Lito Sousa tenta viabilizar a participação do piloto nos estudos clínicos.

Medicamento experimental está em fase de testes

O estudo mais avançado citado pela Agência Brasil envolve um oligonucleotídeo antissenso, molécula desenvolvida para diminuir a produção da proteína priônica normal.

A Ionis realizou testes envolvendo 56 participantes em 2024. Em março de 2026, a empresa iniciou novo recrutamento para avaliar uma dosagem diferente da substância, e os primeiros resultados são esperados para 2027.

A estratégia busca reduzir a quantidade de proteínas que poderiam ser transformadas em príons anormais. Isso poderia, em tese, diminuir a progressão da doença.

Os pesquisadores alertam, no entanto, que os estudos ainda precisam demonstrar eficácia e segurança. Mesmo que uma substância consiga reduzir a formação de novos príons, ela pode não ser capaz de reverter os danos neurológicos já provocados.

Pesquisa brasileira investiga compostos da moringa

Cientistas brasileiros também procuram alternativas contra a DCJ. Uma parceria envolvendo a UFRJ, Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal de Goiás (UFG) pesquisa dois compostos encontrados na Moringa oleifera, planta também conhecida como acácia-branca.

Em experimentos realizados em laboratório, o extrato da planta conseguiu impedir a capacidade de uma proteína anormal de modificar outra proteína normal. Os pesquisadores identificaram dois compostos envolvidos no processo: ácido clorogênico e ácido neoclorogênico.

Outro resultado considerado promissor foi a capacidade dessas substâncias de desagregar príons já acumulados nos experimentos.

Isso, porém, não significa que a moringa cure ou trate a Doença de Creutzfeldt-Jakob. A própria pesquisadora Tuane Vieira ressalta que os estudos estão em estágio inicial e que substâncias naturais também podem provocar efeitos nocivos ao organismo.

O grupo realiza atualmente experimentos com células humanas e busca recursos para avançar para testes em animais, em parceria com pesquisadores franceses.

Como é feito o diagnóstico da DCJ?

Um dos exames mais específicos disponíveis para auxiliar na confirmação da doença em pacientes vivos é o RT-QuIC. No Brasil, segundo a Agência Brasil, o procedimento é realizado no Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.

O exame utiliza uma amostra de líquor, líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal, para verificar se proteínas presentes no material são capazes de induzir a alteração de proteínas normais.

Segundo Tuane Vieira, o RT-QuIC é considerado padrão de referência para identificar a doença ainda em vida.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a avaliação também considera exames de imagem, como ressonância magnética e tomografia, além da análise de biomarcadores presentes no líquor.

A pesquisadora defende a atualização das diretrizes brasileiras para ampliar o acesso a métodos mais específicos. Como a doença apresenta evolução acelerada, um diagnóstico rápido pode ser importante para orientar a assistência ao paciente e à família.

Ciência ainda busca respostas

Apesar dos avanços nas pesquisas, a Doença de Creutzfeldt-Jakob permanece sem tratamento curativo comprovado. Os medicamentos experimentais estudados nos Estados Unidos e as pesquisas realizadas no Brasil representam possibilidades científicas, mas ainda precisam superar diversas etapas antes de qualquer utilização clínica.

O caso de Lito Sousa ampliou a atenção pública sobre uma enfermidade extremamente rara e ainda cercada por questões científicas em aberto.

Fonte: Agência Brasil