Levantamento aponta diagnóstico tardio da doença no Brasil; especialista defende ampliação do acesso à tomografia e rastreamento de pessoas com maior risco
O diagnóstico tardio do câncer de pulmão continua sendo um dos maiores obstáculos para aumentar as chances de cura no Brasil. Levantamento do Instituto Lado a Lado pela Vida mostra que quase 90% dos pacientes com estadiamento conhecido analisados no Sistema Único de Saúde (SUS) descobriram a doença nos estágios 3 ou 4.
A análise foi feita pela plataforma Data Câncer 360º, com base em 14.145 diagnósticos registrados no SUS em 2023. Entre os casos nos quais foi possível identificar o estágio da doença, 7.267 pacientes, ou 89,6%, já apresentavam câncer em fase avançada.
Segundo reportagem de Alana Gandra, da Agência Brasil, publicada em 6 de agosto de 2026, 2.015 pacientes foram diagnosticados no estágio 3 e outros 5.252 no estágio 4. Nessas fases, as possibilidades de tratamento curativo são menores.
Apenas 698 pacientes, correspondentes a 10,4% dos casos com estadiamento informado, tiveram o câncer de pulmão identificado nas fases iniciais. Foram 307 diagnósticos no estágio 1 e 391 no estágio 2.
Câncer de pulmão pode avançar sem sintomas claros
O oncologista Igor Morbeck, integrante do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, explica que o câncer de pulmão costuma evoluir de maneira silenciosa. Quando surgem sinais, eles podem ser confundidos com problemas respiratórios mais comuns.
Tosse persistente, falta de ar e manifestações semelhantes às observadas em infecções respiratórias, bronquite, asma ou gripe podem atrasar a procura por uma investigação mais aprofundada.
Morbeck afirma que o diagnóstico em estágio avançado também reflete dificuldades de acesso à assistência e à investigação adequada. Para ele, o cenário brasileiro é especialmente preocupante diante da elevada proporção de pacientes que chegam ao sistema de saúde com a doença avançada.
Especialista defende rastreamento de grupos de risco
O oncologista destaca a importância do acompanhamento de pessoas com maior risco de desenvolver câncer de pulmão, especialmente fumantes e ex-fumantes. Ele defende maior utilização da tomografia para identificar possíveis tumores ainda nas fases iniciais.
A recomendação de rastreamento deve considerar fatores individuais, como idade, histórico de tabagismo e condições clínicas. A indicação e a periodicidade dos exames precisam ser avaliadas por profissionais de saúde.
Segundo Morbeck, entretanto, o Brasil ainda não conta com um programa nacional estruturado de rastreamento do câncer de pulmão semelhante às estratégias utilizadas para alguns outros tipos de câncer.
Ele avalia que essa ausência faz com que muitos pacientes procurem atendimento somente depois do surgimento dos sintomas, quando a doença pode estar mais avançada.
Dados incompletos também preocupam especialistas
Outro problema identificado pelo levantamento é a qualidade dos registros relacionados ao câncer. Em uma parcela significativa dos casos analisados, informações importantes sobre extensão do tumor e presença de metástases não estavam disponíveis.
Do total de diagnósticos considerados pelo estudo, 3.857 registros tiveram o estadiamento classificado como ignorado. Outros 2.100 apareceram na categoria “não se aplica”.
Para Morbeck, exames de imagem adequados são importantes para esclarecer a extensão da doença. O médico também alerta que o raio X de tórax, isoladamente, não é suficiente para excluir ou confirmar com segurança um câncer de pulmão.
Tabagismo permanece como principal fator de risco
O cigarro continua sendo o principal fator de risco associado ao câncer de pulmão. De acordo com o Instituto Lado a Lado pela Vida, aproximadamente 85% dos casos estão relacionados ao tabagismo.
A preocupação também alcança o uso de cigarros eletrônicos, especialmente entre os jovens. O consumo de produtos com nicotina pode levar à dependência e trazer consequências à saúde a longo prazo.
Além do tabagismo, o instituto cita poluição atmosférica, exposição profissional a determinadas substâncias químicas, predisposição genética e doenças pulmonares crônicas entre os fatores que precisam ser considerados na avaliação dos pacientes.
Brasil pode ter mais de 35 mil novos casos por ano
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano no Brasil durante o triênio de 2026 a 2028, segundo os dados reproduzidos pela Agência Brasil.
Em 2024, 32.555 pessoas morreram em decorrência da doença no país.
Morbeck defende campanhas de conscientização e uma atuação mais próxima da atenção primária para identificar pessoas expostas aos principais fatores de risco. Na avaliação do especialista, o diagnóstico precoce pode aumentar as possibilidades terapêuticas e também reduzir os custos relacionados ao tratamento de tumores avançados.
Respire Agosto reforça prevenção
A campanha Respire Agosto, promovida pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, procura ampliar a conscientização sobre prevenção, fatores de risco e diagnóstico precoce do câncer de pulmão.
Entre as participantes da campanha está Mônica Chain Montone, paciente que recebeu o primeiro diagnóstico em 2008 e enfrentou uma recidiva em 2010. Segundo relato à Agência Brasil, o tumor foi descoberto inicialmente em estágio precoce e ela permanece em acompanhamento médico periódico.
Mônica atribui seu câncer ao histórico de tabagismo e defende a criação de políticas públicas que ampliem o acompanhamento de fumantes e ex-fumantes com maior risco para a doença.
A experiência reforça uma das principais mensagens da campanha: identificar o câncer de pulmão precocemente pode ampliar significativamente as opções de tratamento.
Para quem possui histórico de tabagismo ou outros fatores de risco, a orientação é procurar um serviço de saúde para avaliação individual e definição dos exames apropriados.
Fonte: Agência Brasil .