De repente ela sentou-se num canto do quintal, numa
cadeira de praia colocada há tempos debaixo da mangueira. Era para ser
descartada, mas, o saudosismo tomou conta e foi deixada lá ao acaso,
esquecida, na sombra; buscava o sol, mas, não ele não vinha. E sentada na
velha cadeira, viu as crianças correrem pelo gramado, gritando, atrás do gato
preto e branco, manso como nunca se viu. O convívio com as crianças
incontidas e barulhentas, a tirava do sério, nos momentos em que buscava a si
mesma, e ao mesmo tempo enchia sua vida de saudades.
A garota esperta e estudiosa, linda, de dentes brancos e
cabelos longos, era curiosa e perspicaz e lhe fazia perguntas que não sabia
responder: “Mãe, por que a gente morre?”. O menino também indagava:
“Mãe, eu tenho que ir à escola?”. E o caçula torcia pelo time de seu pai, até
que um dia, um compadre o tornou corintiano.
E debaixo da sobra da velha mangueira a lembrança do
irmão adotivo negro encheu seu coração de saudades. Grande forte,
encontrado abandonado entre caixas de papelão e foi levado para dentro da
casa de sua mãe. Ele não tinha cor, mas, tinha um coração enorme e nunca
mais deixou de lembra-se da mãe postiça até morrer, e morreu tão cedo… E
também a mãe morreu cedo, quando estava entrando na casa dos sessenta,
não deu adeus e nem mandou lembranças. E a solidão das velhas memórias
foi tomando conta de seus momentos de meditação. Onde foi parar aquela
jovem cheia de esperanças que desejava enfrentar o mundo de qualquer
jeito, estudando, estudando estudando?
Nada a reclamar da vida que Deus lhe destinou, apenas
a saudade de ser jovem lhe veio à lembrança, pois, queria ainda correr solta
pelas ruas, como fazia antes, queria sim, ainda dar aulas para aqueles
homens adultos que derrubavam árvores, mas, que sequer conheciam o
alfabeto; queria sim andar sem sombrinha pela chuva que veio sem avisar e
queria muito mais ainda andar solta na rua, na praça, indo á igreja, indo no
matinée dos domingos, no velho velho cinema, queria encontrar seu primeiro
amor e dizer-lhe que o amaria para sempre.
Ela está lá à sombra da mangueira, mas, resiste às
lembranças porque não se vive de saudades e nem de passado. Enfrenta, à
sombra da mangueira todos os seus dramas pessoais que lhe pertencem e não
servem para ninguém mais. Não é exemplo de nada… Ela quer tão somente
viver em paz e ser feliz!
Izaura Varella – Advogada e Professora