Pré-natal completo ainda é menor entre indígenas, adolescentes e mulheres com baixa escolaridade

Estudo com mais de 2,5 milhões de nascimentos acende alerta para desigualdades no acesso ao pré-natal no Brasil, com cenário mais crítico no Norte do país

Mesmo com quase universalização da primeira consulta de pré-natal no Brasil, a continuidade do acompanhamento ainda esbarra em desigualdades sociais, raciais e regionais. Um estudo divulgado nesta segunda-feira (13) mostra que o acesso ao pré-natal completo é menor entre mulheres indígenas, com baixa escolaridade, adolescentes e moradoras da Região Norte.

De acordo com a pesquisa, 99,4% das gestantes realizam ao menos uma consulta. No entanto, quando se observa o ciclo recomendado até a sétima consulta, a cobertura cai para 78,1%, o que expõe falhas no acompanhamento ao longo da gestação.

Os dados foram produzidos por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane. O levantamento utilizou mais de 2,5 milhões de registros de nascimentos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), referentes a 2023, do Ministério da Saúde.

Desigualdade cresce entre mulheres com menos estudo

O estudo identificou forte diferença conforme o nível de escolaridade das gestantes. Entre as mulheres com maior tempo de estudo, 86,5% completam o pré-natal considerado adequado. Já entre aquelas com menor escolaridade, esse índice despenca para 44,2%.

A situação é ainda mais preocupante quando fatores sociais se sobrepõem. Entre mulheres indígenas com baixa escolaridade, apenas 19% conseguem cumprir o número recomendado de consultas. Em contraste, entre mulheres brancas com 12 anos ou mais de estudo, o percentual chega a 88,7%.

Indígenas enfrentam maior exclusão no acompanhamento

As gestantes indígenas aparecem como o grupo com maior dificuldade de acesso ao pré-natal integral. Segundo o levantamento, 51,5% delas conseguem concluir o acompanhamento, abaixo dos índices registrados entre mulheres brancas (84,3%), pretas (75,7%) e pardas (75,3%).

Outro dado que chama atenção é a interrupção do cuidado ao longo da gestação. Entre indígenas, a perda de acompanhamento alcança 46,2 pontos percentuais, quase três vezes o patamar observado entre mulheres brancas, de 15,3 pontos percentuais.

Norte do país registra pior cobertura de pré-natal

No recorte regional, a Região Norte concentra o pior resultado do país. Apenas 63,3% das gestantes conseguem ter o pré-natal plenamente assegurado.

Na sequência aparecem o Nordeste, com 76,1%, e o Centro-Oeste, com 77%. Os melhores indicadores estão no Sudeste, com 81,5%, e no Sul, com 85%.

Gestação na adolescência também exige atenção

O estudo também recomenda políticas voltadas especificamente para gestantes adolescentes. Entre mulheres com menos de 20 anos, apenas 67,7% chegam ao pré-natal completo. Entre aquelas com mais de 35 anos, o índice sobe para 82,6%.

Para a pesquisadora Luiza Eunice, responsável pelo estudo no ICEH/UFPel, é necessário ampliar o debate sobre educação sexual, enfrentar o estigma da gravidez na adolescência e combater o racismo estrutural e a discriminação no atendimento em saúde.

Ela também defende ações que facilitem a chegada das gestantes às unidades, como transporte público acessível, além do fortalecimento do vínculo com profissionais de saúde. Segundo a especialista, a busca ativa e o acolhimento são decisivos para garantir o retorno às consultas.

Meta do governo elevou exigência para o acompanhamento

A pesquisadora lembra que o parâmetro de sete consultas é recente no país. Em 2024, o governo federal ampliou a recomendação ao lançar a Rede Alyne, estratégia voltada à redução da mortalidade materna em 25% até 2027. No caso das gestantes negras, a meta é cortar os casos pela metade.

Na avaliação da gerente de Investimento e Impacto Social da Umane, Evelyn Santos, o desafio agora é garantir equidade no atendimento. Segundo ela, o sistema público precisa ser mais proativo para alcançar populações vulneráveis, sem depender apenas da iniciativa individual das gestantes.

Entenda por que o pré-natal é essencial

O pré-natal é fundamental para identificar precocemente doenças, riscos e condições que podem afetar a saúde da mãe e do bebê. O acompanhamento também orienta sobre parto, amamentação, alimentação e cuidados gerais durante a gravidez.

A Sociedade Brasileira de Pediatria destaca que esse período é importante para incentivar o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e a manutenção do leite materno como principal fonte de nutrição até os 2 anos ou mais, junto à introdução alimentar adequada.

Além disso, o leite materno ajuda a proteger a criança contra infecções, fortalece a imunidade e contribui para o vínculo entre mãe e bebê. Para a mulher, a amamentação também pode ajudar na recuperação pós-parto e reduzir riscos de algumas doenças.

Como é a rotina de consultas e exames

A frequência das consultas varia conforme o estágio da gestação. Em geral, o acompanhamento é mensal até a 28ª semana, quinzenal até a 36ª semana e semanal no fim da gravidez.

Entre os exames que podem ser solicitados estão hemograma, tipagem sanguínea, glicemia em jejum, testes para sífilis, HIV e hepatite B, além de avaliação de urina e, em alguns casos, ultrassonografia obstétrica e outros exames conforme a necessidade clínica.

A desigualdade revelada pelo estudo reforça a necessidade de políticas públicas mais direcionadas, sobretudo para indígenas, adolescentes, mulheres com baixa escolaridade e gestantes que vivem em regiões com menor cobertura. O pré-natal é um direito básico e o acesso adequado pode fazer diferença direta na saúde de mães e bebês.

Fonte: Agência Brasil.