Brasil à beira do narcoestado? Promotor alerta sobre avanço do PCC e falhas na segurança pública

Falta de integração entre polícias favorece crime organizado e pode transformar país em narcoestado, diz Lincoln Gakiya

O Brasil corre sério risco de se tornar um narcoestado, caso o poder público não consiga enfrentar com firmeza a atuação das facções criminosas — especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC). O alerta é do promotor Lincoln Gakiya, um dos principais nomes no combate ao crime organizado em São Paulo, que há décadas investiga a estrutura da facção.

Durante sessão da CPI do Crime Organizado no Senado, Gakiya foi direto: o problema não está apenas na legislação, mas na falta de coordenação entre forças de segurança estaduais e federais, agravada pela polarização política entre os governos.

“O que vejo hoje são disputas institucionais entre as polícias e o Ministério Público”, afirmou Gakiya, ao defender a criação de uma Autoridade Nacional contra o crime organizado, independente das forças em conflito político.

Facções dominam economia formal

O promotor afirmou que o PCC atua em 28 países, está presente em todos os estados brasileiros e movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano — um salto drástico em relação aos R$ 10 milhões estimados em 2010.

Segundo ele, o grupo infiltrou-se na economia legal, inclusive em empresas de transporte urbano de São Paulo, com contratos milionários com a prefeitura. Diretores dessas empresas estariam, inclusive, na lista vermelha da Interpol.

Lavagem de dinheiro por fintechs e apostas

Outro ponto crítico destacado foi a atuação do PCC em fintechs, apostas esportivas (bets) e com o uso de criptomoedas, aproveitando-se da baixa regulação financeira para lavar dinheiro em larga escala. Gakiya apontou contratos com influenciadores digitais como um dos meios utilizados para disfarçar os recursos ilegais.

“Essas empresas estão sendo usadas para lavar dinheiro, com contratos suspeitos com influenciadores que enriquecem rapidamente”, disse.

A crítica também recai sobre a falta de fiscalização por parte do Banco Central e do Coaf, que só passaram a agir com mais rigor após investigações como a Operação Carbono Oculto.

PL Antifacção não resolve, diz promotor

Sobre o Projeto de Lei Antifacção, Gakiya foi categórico: o texto não diferencia líderes dos chamados “soldados” do crime, o que pode dificultar ações mais eficientes e proporcionalizadas. Ele defende a adoção de ferramentas processuais mais incisivas, nos moldes da legislação italiana contra a máfia.

Além disso, criticou a retirada dos homicídios cometidos por membros de facção do Tribunal do Júri, uma mudança feita pelo relator do projeto, Guilherme Derrite (PP-SP). Para Gakiya, o argumento de que jurados poderiam sofrer pressão não justifica a alteração, já que juízes também estão expostos ao risco.

Crime organizado avança no poder público

Gakiya ainda alertou sobre a infiltração das facções em prefeituras, principalmente por meio de financiamento de campanhas eleitorais. O objetivo seria claro: firmar contratos com o poder público e garantir controle institucional.

“O PCC quer ter negócios com o Estado, e para isso precisa ter influência sobre ele”, completou.

O que está em jogo?

A fala do promotor escancara uma realidade preocupante: o Estado está perdendo espaço para o crime organizado. Se medidas urgentes não forem adotadas — como uma coordenação central, regulação do sistema financeiro digital e revisão eficaz da legislação — o Brasil poderá, de fato, caminhar rumo a um cenário em que o tráfico dita regras e influencia decisões políticas.


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Fonte: Agência Brasi