Cobertura segue abaixo do ideal em grande parte dos estados, revela Anuário VacinaBR
Apesar de sinais de recuperação nas coberturas vacinais, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos na imunização infantil. Segundo o Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e o Unicef, nenhuma vacina infantil do calendário nacional atingiu a meta de cobertura de 95% em todos os estados no ano passado.
As vacinas contra poliomielite, meningococo C, varicela e Haemophilus influenzae tipo B apresentaram os piores resultados, com todos os estados abaixo da meta. Apenas 1.784 municípios – menos de 32% dos mais de 5.570 no país – cumpriram a meta de cobertura para quatro vacinas prioritárias: pentavalente, poliomielite, pneumo-10 e tríplice viral. O melhor desempenho veio do Ceará, com 59% dos municípios alcançando o objetivo, enquanto no Acre, somente 5% atingiram a meta.
Para o diretor executivo do IQC, Paulo Almeida, os dados mostram que os desafios variam muito de região para região. “Temos municípios vizinhos, com perfis semelhantes, mas com resultados completamente diferentes”, observa. Ele destaca ainda que estratégias antigas de campanha não funcionam da mesma forma na atualidade, devido à fragmentação dos canais de comunicação.
A vacina BCG, aplicada em recém-nascidos contra formas graves de tuberculose, também ficou abaixo da meta em 19 estados. No Espírito Santo, apenas 58% dos bebês foram vacinados. Mesmo em estados com bons indicadores, ainda existem cidades com cobertura vacinal muito baixa.
A diretora da SBIm, Isabela Ballalai, alerta para o papel decisivo dos municípios e a importância de tornar o acesso à vacina mais fácil. Ela aponta problemas como horários restritos de funcionamento dos postos, desabastecimento de vacinas e falhas na comunicação com o público. “Se a pessoa recebe uma informação errada ou chega e não tem vacina, ela dificilmente volta”, afirma.
Outro ponto destacado no Anuário é o alto índice de abandono vacinal – quando o esquema é iniciado, mas não finalizado. A vacina tríplice viral, por exemplo, teve apenas quatro estados que atingiram a meta de cobertura da primeira dose em 2023. A segunda dose não alcançou nem 50% em 14 estados.
A hesitação vacinal, segundo especialistas, é alimentada por uma falsa sensação de segurança. “As pessoas deixam de vacinar porque não conhecem mais os riscos das doenças”, explica Ballalai. Doenças como sarampo, caxumba e rubéola, preveníveis com a tríplice viral, podem causar complicações graves e até morte. Em 2025, o Brasil já registrou cinco casos isolados de sarampo.
Soluções possíveis incluem o uso de SMS como lembrete para a vacinação, horários estendidos nos postos e uso das escolas como pontos de imunização. “A escola resolve três grandes problemas: acesso, informação e vínculo entre a saúde e a comunidade”, afirma Ballalai.
Com a queda iniciada em 2015 e agravada em 2021, as taxas de cobertura mostram sinais de melhora, mas o caminho até a imunização ideal ainda é longo. O fortalecimento de campanhas segmentadas e o uso de tecnologias de comunicação são apontados como medidas urgentes para recuperar a confiança da população e melhorar os índices vacinais no Brasil.
Fontes: Agência Brasil, Instituto Questão de Ciência (IQC), Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Unicef