Deixo meu vaso de samambaia, viçoso, verde e denso
Para a pombinha amargosa que entre a folhagem
Fez seu ninho, deixando dois ovinhos brancos.
As orquídeas que parasitam no tronco da velha pitangueira,
De beleza faceira, deixo para a luz do sol
Que nunca as desamparou.
As jabuticabas pretinhas, que forram o tronco fino
Deixo para as abelhas que as circundam em busca do mel.
A rede que atravessa a varanda
E convida para deitar
Eu deixo para o meu amor relaxar nas tardes quentes.
A grama fina japonesa
Que teima em brotar entre as pedras do jardim,
Eu deixo para as formigas se esconderem,
E descansarem do labor pesado:
“leva folhinhas, traz folhinhas verdes para o formigueiro.
O ninho de passarinho
Que encontrei entre os ramos da primavera
Deixo para os pardais que rondam o meu quintal.
Deixo a água da piscina para os bem-te-vis
De peito amarelo e para as maritacas que
fazem arruaças barulhentas no meu quintal.
E as primeiras camélias róseas que se abrirem para o dia,
Eu deixo pro meu amor,
Meu doce companheiro das minhas sem sono…
Deixo, enfim para meus filhos
Todos os beijos que não lhes dei
E que encontram guardados
No porta-jóias da gaveta da penteadeira!
Izaura Varella – Academia de Letras de Cianorte