Pandemia reduziu expectativa de vida no Brasil em 3,4 anos

Estudo Carga Global de Doenças aponta que aumento da mortalidade durante a covid-19 provocou forte retrocesso na expectativa de vida dos brasileiros; pesquisadores associam impacto à falta de coordenação nacional na crise sanitária.

A expectativa de vida no Brasil caiu 3,4 anos durante a pandemia de covid-19, segundo análise nacional do Estudo Carga Global de Doenças, publicado na edição de maio da revista The Lancet Regional Health – Americas. O levantamento aponta que o país registrou aumento de 27,6% na mortalidade no período.

O estudo, considerado uma das maiores pesquisas mundiais sobre o impacto de doenças e fatores de risco, avalia dados de mais de 200 países. No caso brasileiro, os pesquisadores afirmam que o retrocesso foi influenciado pela condução da pandemia pelo governo federal da época, comandado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com os autores, autoridades nacionais enfraqueceram orientações científicas, questionaram medidas como o distanciamento social, promoveram medicamentos sem eficácia comprovada e atrasaram a aquisição de vacinas. A avaliação foi divulgada pela Agência Brasil, em reportagem de Tâmara Freire, publicada neste sábado, 16 de maio de 2026.

Norte teve as maiores perdas na expectativa de vida

Embora a queda na expectativa de vida tenha atingido todo o país, os impactos foram diferentes entre os estados. As maiores reduções ocorreram na região Norte, onde os sistemas de saúde enfrentaram forte pressão durante a crise sanitária.

Rondônia registrou a maior queda, com perda de 6,01 anos na expectativa de vida. Em seguida aparecem Amazonas, com 5,84 anos, e Roraima, com 5,67 anos.

Na outra ponta, os menores recuos foram registrados no Nordeste. Maranhão teve queda de 1,86 ano, Alagoas perdeu 2,01 anos e o Rio Grande do Norte apresentou redução de 2,11 anos.

Medidas estaduais ajudaram a reduzir impactos

Segundo o estudo, a diferença entre as regiões está relacionada à forma como governos estaduais responderam à pandemia. Os pesquisadores destacam que, na ausência de uma coordenação nacional, governadores do Nordeste criaram um consórcio com comitê científico independente.

Entre as medidas citadas estão distanciamento social, fechamento temporário de escolas e comércios, obrigatoriedade do uso de máscaras, políticas de proteção aos trabalhadores e sistemas de dados em tempo real.

Para os autores, o impacto da pandemia sobre a expectativa de vida poderia ter sido menor em todo o país caso houvesse uma estratégia federal alinhada às recomendações científicas e sanitárias.

Brasil ficou atrás de países do Mercosul e Brics

A análise também compara o desempenho brasileiro com o de outros países. Segundo o levantamento, o Brasil teve resultado pior que Argentina e Uruguai, no Mercosul, e também ficou atrás de países do Brics, como China e Índia.

Os pesquisadores afirmam que o país, apesar de ter histórico reconhecido de cobertura vacinal, enfrentou demora na vacinação contra a covid-19. O estudo associa esse atraso à falta de organização, à aquisição tardia de imunizantes e à ênfase em medicamentos sem comprovação científica para o chamado “tratamento precoce”.

Apesar da pandemia, Brasil teve avanços desde 1990

Em uma análise de longo prazo, o estudo mostra que o Brasil avançou em indicadores de saúde. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida subiu 7,18 anos.

No mesmo período, a mortalidade padronizada por idade caiu 34,5%. Esse indicador permite comparar a mortalidade sem que o envelhecimento da população distorça os resultados.

O índice que mede anos saudáveis perdidos por morte ou doença também apresentou melhora, com queda de 29,5%. Entre os fatores associados a esse avanço estão melhorias na qualidade de vida, ampliação do saneamento básico, crescimento econômico, fortalecimento do Sistema Único de Saúde, criação do Programa de Saúde da Família e expansão da vacinação.

Doenças cardíacas lideram mortes no país

Em 2023, a principal causa de morte no Brasil foi a doença isquêmica do coração. Na sequência aparecem o AVC e as infecções do trato respiratório inferior.

Já entre as mortes prematuras, a principal causa foi a violência interpessoal. O estudo estima que o Brasil perdeu 1.351 anos de vida a cada 100 mil habitantes por esse tipo de morte.

A maior parte das principais causas de morte teve redução nas últimas décadas quando considerada a mortalidade padronizada por idade. As exceções foram Alzheimer e outras demências, com alta de 1%, e doença crônica renal, que cresceu 9,6% entre 1990 e 2023.

O que o estudo indica

A pesquisa reforça que a pandemia de covid-19 provocou um dos maiores retrocessos recentes nos indicadores de saúde do Brasil. Ao mesmo tempo, mostra que políticas públicas consistentes, vacinação, atenção básica e ações coordenadas podem reduzir mortes e ampliar a expectativa de vida da população.

Fonte: Agência Brasil