Mortes por álcool entre mulheres cresceram 27% em 13 anos; lei sancionada prevê atendimento multiprofissional
Mulheres em situação de dependência alcoólica passaram a ter reconhecimento oficial nas políticas públicas de saúde. Sancionada esta semana, a Lei 15.281, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, determina a promoção de assistência multiprofissional específica para mulheres usuárias e dependentes de álcool, atendendo a uma demanda urgente diante do aumento de casos e da vulnerabilidade desse grupo.
O tema foi trazido à tona com força após o relato de Lúcia*, uma curitibana que só reconheceu os abusos sexuais que sofreu do próprio marido após iniciar seu processo de recuperação no Alcoólicos Anônimos (AA). “A mulher alcoólica é extremamente vulnerável”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Mais que dependência: uma questão de gênero e saúde pública
Segundo a psiquiatra Natalia Haddad, vice-presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), tratar o alcoolismo feminino requer um olhar específico. “É muito diferente tratar uma mulher alcoolista do que um homem alcoolista, uma gestante do que uma não-gestante”, explica.
Entre 2010 e 2023, as mortes relacionadas ao consumo de álcool entre mulheres aumentaram 27% no Brasil. E o recorte racial agrava ainda mais o cenário: 70% das mortes ocorrem entre mulheres pretas e pardas, evidenciando também um problema social e estrutural.
A nova legislação representa um avanço, mas especialistas alertam: é preciso garantir ações práticas e prazos definidos para implementação.
Fatores biológicos e sociais agravam impacto do álcool nas mulheres
Além das diferenças físicas – como menor capacidade de metabolização do álcool –, as mulheres enfrentam estigmas sociais e múltiplas jornadas, que dificultam o reconhecimento da dependência e a busca por ajuda.
“Sabemos que a mulher tem mais dificuldade de procurar ajuda do que o homem”, reforça Haddad, mencionando sentimentos de culpa e julgamento social como barreiras comuns.
Em casos de gestação ou amamentação, os riscos se estendem ao feto, podendo causar doenças graves e impactos irreversíveis.
Grupos femininos oferecem acolhimento sem julgamentos
Para muitas mulheres, grupos de apoio exclusivamente femininos se tornaram espaços essenciais de escuta e recuperação. No Alcoólicos Anônimos, iniciativas como a Colcha de Retalhos promovem atividades com foco no acolhimento de mulheres.
Segundo dados do AA, as reuniões femininas cresceram 47,7% desde a pandemia, com 65 encontros realizados semanalmente em todo o país. Em 2025, 6,5 mil mulheres buscaram ajuda pelos canais da Colcha de Retalhos.
“Nos grupos femininos, pude falar das dores, dos abusos e me sentir segura”, relatou Kika*, do Rio de Janeiro. Sandra*, de São Paulo, completou 24 anos de sobriedade e destaca os preconceitos enfrentados até dentro da própria família.
Avanço legislativo precisa de ação concreta
A nova lei é vista por especialistas como uma vitória, mas ainda precisa ser colocada em prática com políticas públicas efetivas. “É necessário ver o que será implicado com essa lei, quais ações serão implantadas e qual o prazo para isso”, conclui Natalia Haddad.
Fonte: Agência Brasil – Luiz Claudio Ferreira