Substância criada por pesquisadores da UFRJ entra na fase 1 dos ensaios clínicos e renova a esperança de pacientes com lesão medular, embora a ciência ainda precise confirmar segurança e eficácia.
A polilaminina voltou ao centro do debate científico no Brasil após o anúncio de que a fase 1 dos ensaios clínicos deve começar ainda em março. A substância, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, é vista como uma possível alternativa para o tratamento de lesões medulares, mas ainda enfrenta um caminho rigoroso até eventual validação.
O interesse cresceu porque os resultados preliminares em pacientes sugerem recuperação de movimentos em alguns casos graves. Mesmo assim, especialistas alertam que os dados ainda não permitem afirmar, de forma definitiva, que a tecnologia é eficaz.
O que é a polilaminina
A polilaminina surgiu a partir de uma descoberta feita pela professora Tatiana Sampaio Coelho durante estudos com a laminina, proteína presente em várias partes do corpo humano. Em vez de se separar, como esperado no experimento, as moléculas passaram a se unir e formaram uma rede.
A partir dessa observação, os pesquisadores passaram a investigar o potencial da substância no sistema nervoso. A hipótese é que a polilaminina funcione como uma espécie de base para o crescimento de axônios, estruturas dos neurônios responsáveis por transmitir sinais entre o cérebro e o corpo.
Em casos de fratura na medula, esses axônios podem ser rompidos, interrompendo a comunicação nervosa e causando paralisia. O objetivo da pesquisa é verificar se a substância pode ajudar a restabelecer essa conexão.
Por que a descoberta gera esperança
Nos testes pré-clínicos e em um estudo-piloto com oito pacientes, a equipe observou sinais de recuperação motora em pessoas com lesões medulares graves. Cinco pacientes que receberam a substância e passaram por cirurgia de descompressão apresentaram algum ganho funcional.
Entre eles está Bruno Drummond de Freitas, que sofreu uma fratura cervical em 2018 e chegou a ficar tetraplégico. Segundo relato no programa Sem Censura, da TV Brasil, ele começou a perceber os primeiros movimentos semanas após o procedimento e, depois de anos de fisioterapia e reabilitação, voltou a andar, mantendo limitações apenas em parte dos movimentos das mãos.
Apesar desses relatos chamarem atenção, os próprios pesquisadores reconhecem que o estudo ainda não prova a eficácia do tratamento. Isso porque uma parcela dos pacientes com lesão medular completa pode apresentar melhora espontânea, e o quadro inicial também pode ser influenciado por inflamação e inchaço.
O que falta comprovar
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil ressaltam que a pesquisa ainda precisa cumprir etapas fundamentais dos ensaios clínicos. A fase 1, prevista para começar neste mês, terá como foco principal a segurança do tratamento.
De acordo com a Anvisa, a aplicação será feita em cinco pacientes voluntários com lesão medular torácica aguda e completa, entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica em até 72 horas após o trauma. O procedimento será realizado no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
O que será avaliado na fase 1
Nesta etapa, os pesquisadores devem monitorar possíveis eventos adversos, sinais de toxicidade e alterações neurológicas. Também serão feitos exames para verificar como o organismo reage à substância.
Embora a fase 1 costume ser voltada apenas à segurança, a equipe da pesquisa informou que já pretende observar indícios de eficácia. Ainda assim, a confirmação real do benefício depende de estudos maiores, com comparação entre grupos e acompanhamento mais amplo.
Entenda as fases dos testes clínicos
O professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Eduardo Zimmer, explicou que os testes clínicos costumam seguir três fases principais. Cada uma tem uma função específica no desenvolvimento de um novo medicamento.
Na fase 1, o objetivo é verificar segurança e tolerabilidade. Na fase 2, o estudo amplia o número de participantes e avalia doses e sinais mais consistentes de eficácia.
Já na fase 3, a análise costuma envolver muitos voluntários, diferentes centros de pesquisa e comparação com um grupo controle. É essa etapa que normalmente fornece as evidências mais robustas para confirmar se o tratamento realmente funciona.
Quais são os desafios da pesquisa
No caso da polilaminina, os testes têm uma dificuldade extra: o tratamento precisa ser aplicado pouco tempo após a lesão, enquanto os resultados podem levar meses ou anos para aparecer. Isso complica o desenho clássico dos estudos, especialmente na formação de grupos de controle.
O ex-presidente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), Jorge Venâncio, avaliou que adaptações podem ser necessárias em pesquisas inovadoras. Mesmo assim, ele defendeu que os preceitos científicos sejam preservados para evitar conclusões equivocadas.
A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), Meiruze Freitas, reforçou que a esperança em torno da substância não pode substituir a necessidade de dados validados. Segundo ela, as fases existem para proteger os pacientes e garantir que apenas tecnologias seguras e eficazes avancem.
O que pode acontecer nos próximos anos
A expectativa da equipe é concluir as fases de testes em cerca de dois anos e meio. Caso os resultados sejam positivos, a polilaminina poderá representar um avanço inédito no tratamento de lesões medulares, área em que ainda há poucas alternativas além da cirurgia e da reabilitação.
Também existe a possibilidade de um caminho regulatório mais rápido, dependendo dos resultados das fases iniciais e da avaliação dos órgãos competentes. Ainda assim, qualquer aceleração dependerá de decisões técnicas da Anvisa e dos comitês de ética.
Ciência brasileira em evidência
A trajetória da polilaminina também reacende a discussão sobre investimento em ciência pública no Brasil. Para Tatiana Sampaio, o avanço da pesquisa mostra a importância de apoiar projetos de longo prazo capazes de gerar tecnologia nacional e reduzir a dependência externa.
O caso reúne ingredientes raros: impacto social elevado, apelo científico e possibilidade de inovação inédita. Mas, por enquanto, a maior conquista é outra: ter chegado ao ponto em que a esperança começa a ser testada com método.
Fonte: Agência Brasil, reportagem de Tâmara Freire.