PRAZER DA MISÉRIA DOS OUTROS

“Que coisa mais medonha de se imaginar que uma língua possa possuir uma palavra que
expresse o prazer que um homem sente para com as calamidades alheias; a própria
existência da palavra presta testemunho da existência da coisa. E mesmo assim, em mais de
um idioma tal palavra existe. No grego epikhairekakia e no alemão schadenfreude.”

Lendo por aí encontrei a palavra alemã Schadenfreude,
que literalmente quer dizer “alegria do dano”. Designa o sentimento de alegria ou
satisfação perante o dano ou infortúnio de um terceiro. A pessoa, diante do infortúnio
alheio se expressa abertamente mostrando escárnio, ironia ou sarcasmo perante a
desventura de uma terceira pessoa. Esta pessoa pode ser mesmo um desafeto antigo,
alguma pessoa pela qual se sente ódio, que lhe desagrada, que lhe fez muito mal ou o
prejudicou no passado. Agora, diante da desventura desta pessoa que caiu na desgraça
da vida, a pessoa se sente feliz e prazerosa em vê-lo sofrer. Diz: “bem feito para ela…”
e pronto. Está consignada a vingança. Igualam-se as feras!

Este é mais um sentimento que percorre o interior do ser
humano que é difícil de definir, e muito mais, de justificar. Ora, a pessoa já caiu em
desgraça, e, publicamente se rechaça esta situação, piorando ainda mais a vida da
pessoa, e publicamente. Não gostar de alguém, refutar tal comportamento,
desagradar-se das pessoas, sim é possível, mas sentir prazer pelo infortúnio, que seja
só uma coisa pessoal e nunca publicamente. Guarda-se no coração para o perdão no
tempo certo! Quem se expõe se desmerece e se iguala ao mal sofrido pela outra. A
desgraça da outra é simplesmente a razão de sua própria felicidade!

Aí devemos caminhar em outro sentido, sentido diverso
da desgraça alheia, indo de encontro às nossas próprias conquistas pessoais, em
circunstância qualquer da vida. Ainda bem que na língua portuguesa não há espaço
para este prazer da miséria alheia. A compaixão é um sentimento muito melhor, mais
humanizado, que nos faz crescer e nos coloca na linha do limite entre animais e o ser
humano. Difícil é falar dos sentimentos que perpassam pela alma humana, mas nem os
animais tem esta perversidade. Animal apanha e volta buscar a sua carícia e seu afago.
Daí que este enternecimento incomparável próprio da raça humana não deve se
perder em favor de nosso ódio e em favor de nossa perversidade.

Na verdade as pessoas que nos fizeram mal e caem em
desgraça estarão por aí, mais cedo ou mais tarde serão tragadas pelas surpresas da
vida. O tempo é o senhor da razão! Vamos deixar que a própria vida e o próprio tempo
cobrem as contas no tempo certo, que é o tempo de Deus!
Izaura Aparecida Tomaroli Varella
Advogada e Professora