Autismo em adultos: os impactos do diagnóstico tardio

Identificação tardia pode gerar anos de sofrimento e diagnóstico equivocado de depressão e ansiedade

Receber o diagnóstico de autismo na fase adulta pode ser libertador, mas também doloroso. Para muitos, como a nutricionista Beatriz Lamper Martinez, de 48 anos, e a publicitária Cecilia Avila, de 24, a resposta chega depois de anos de sofrimento psíquico, dificuldades de socialização e confusão sobre os próprios sentimentos.

Beatriz foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apenas aos 47 anos, após décadas sendo tratada sem sucesso para depressão e ansiedade. Ao identificar-se com relatos de autistas adultos, procurou uma clínica especializada e confirmou o diagnóstico de autismo nível 1, além de altas habilidades cognitivas. “O diagnóstico trouxe alívio. Eu não era só instável, eu precisava de compreensão e suporte”, relata.

A descoberta permitiu que Beatriz reorganizasse a vida: ajustes no ambiente de trabalho, pedido de reconhecimento como Pessoa com Deficiência (PCD) e, sobretudo, um novo olhar sobre si mesma. “Hoje, entendo minhas crises. Antes, achava que era recaída de depressão. Agora sei que preciso de descanso, silêncio, autocuidado.”

Já Cecilia enfrentou desconfortos desde a infância, com sensibilidade a sons, roupas e dificuldade em compreender interações sociais. A publicitária só buscou avaliação depois de ouvir o relato de uma colega diagnosticada. “Sempre ouvi que era frescura, drama. Quando veio o diagnóstico, fez sentido. Não era birra. Eu sou autista.”

O diagnóstico tardio, segundo Cecilia, é comum por falta de informação, acesso à saúde e apoio familiar. Ela destaca o impacto emocional de crescer sem entender os próprios limites. “Você começa a duvidar de si, mas ao mesmo tempo é um alívio. Começa uma nova fase, mais consciente.”

Diagnóstico tardio: por que acontece?

De acordo com o psicólogo Leandro Cunha, o diagnóstico em adultos esbarra em diversos fatores: falta de conhecimento, crenças sociais equivocadas e sintomas sutis que são confundidos com transtornos como TOC ou TDAH. “No autismo leve, ou nível 1 de suporte, os sinais passam despercebidos, o que dificulta o reconhecimento precoce”, explica.

O especialista reforça que o diagnóstico, ainda que tardio, permite acesso a terapias, adaptações e comunidades de apoio, melhorando significativamente a qualidade de vida. “Sem diagnóstico, o adulto vive em constante confusão, lidando com dificuldades emocionais, profissionais e sociais sem saber a causa real.”

Transformar a dor em compreensão

Para quem recebe o diagnóstico na fase adulta, o desafio é duplo: lidar com o alívio de finalmente se entender e com o luto pelo tempo perdido. Mas o processo pode ser transformador. Ao compreenderem suas limitações e pontos fortes, adultos autistas ganham autonomia, autoestima e qualidade de vida.

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Fonte: Agência Brasil – Paula Laboissière