UM BICHINHO QUE EU NÃO CONSIGO VER MUDOU A MINHA VIDA

De repente me puseram dentro de minha casa e levaram a chave… Mas eu sei onde ela está, mas não sou louca de contrariar as ordens deixadas em milhares de mensagens que recebi. Principalmente das determinações de minha abençoada filha médica. Um bichinho que nunca vi mudou a minha rotina. Meus pais passaram a mesma crise na Segunda Guerra Mundial, de 1.939 a 1.945 e sem os brasileiros estarem diretamente envolvidos foram atingidos pelo vírus da guerra. Meus pais não passaram fome porque moravam na roça e a terra era generosa.

Minha casa tem três hóspedes: eu, meu marido e um gato preto que apareceu na minha porta e foi adotado por nós. Para nos distrair fomos pescar numa lagoa deserta e cada peixe que eu pegava eu me questionava: “será que este peixe não está contaminado com o corona vírus aquático?” Afinal, tudo é possível debaixo deste céu. Estava um calor imenso e os mosquitos começaram a me rodear! Aí eu pensei: “Estou fugindo do corona vírus e esqueci-me da dengue…” Que tragédia, meu Deus! Lá vou eu atrás do repelente para me salvar…

Um dia, as freiras do meu colégio salesiano me disseram que o ser humano precisa e necessita viver em comunidade, pois daí nasce a solidariedade. Todas elas, as religiosas, eram filhas da segunda guerra mundial e entendiam que o momento da humanidade era ajudar um ao outro. Estamos dentro de uma verdadeira guerra biológica, de combate insano contra um inimigo que nunca vimos, que nos torpedeia no silêncio, e no relaxamento de não se cuidar, mas não deixa também de ser um momento de solidariedade, de ajuda mútua. Já recebi inúmeros recados dizendo que se eu precisar de ajuda para alguma coisa pode contar com a oferta. Isto é generosidade! Fechado dentro de nossa própria casa pode exercitar o dom de acolher, de ofertar, de ajudar e de consolar.

Nunca em toda a história da humanidade, o ser humano foi tão dependente do outro e está tendo a consciência do que significa ser condescendente diante de uma humanidade em crise! Nunca o ser humano se sentiu tão minúsculo diante de um vírus, milhares de vezes menores que ele e que sequer consegue enxergar. E eu vou ficando aqui no meu silêncio alimentando o meu gato preto com as tilápias que pesquei.

Izaura Varella

Professora e Advogada

Isolada, mas solidária! Em 22 de março de 2.020