Perda gestacional: saúde mental exige atenção e acolhimento

Especialistas alertam para sinais de ansiedade e depressão após a perda gestacional e destacam que apoio médico, familiar e psicológico pode ser decisivo durante o luto.

A perda gestacional pode provocar tristeza profunda, culpa, ansiedade, insônia e sensação de vazio. Especialistas alertam que, embora o sofrimento faça parte do processo de luto, sintomas persistentes e a perda da capacidade de realizar atividades cotidianas exigem atenção profissional.

Neste Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) chama atenção para os impactos da perda gestacional sobre a saúde mental das mulheres.

Segundo reportagem de Alana Gandra e Alice Rodrigues, publicada pela Agência Brasil em 5 de setembro de 2026, o acolhimento de médicos, familiares e amigos pode ter papel fundamental para que a mulher atravesse esse momento.

Perda gestacional pode provocar sofrimento intenso

Kalyane Ribeiro passou por uma perda gestacional precoce aos 32 anos, depois de cerca de um ano e meio tentando engravidar. Para ela, uma das maiores dificuldades foi perceber que pessoas próximas nem sempre compreendiam a dimensão daquele luto.

“Eu sempre falo para as pessoas que quando a gente passa por uma perda gestacional, mesmo que seja precoce, a gente entra em um buraco”, relatou à Agência Brasil.

Ela também destaca que frases como “você vai tentar de novo” podem minimizar a experiência vivida pela mulher.

“Só que não é uma questão de substituir o filho. A gente não está procurando um substituto”, afirmou.

Luto precisa de acolhimento

O obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, explica que a perda gestacional constitui um evento traumático e pode exigir acompanhamento especializado.

Segundo o médico, tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, irritabilidade, dificuldade para dormir e perda do interesse por atividades cotidianas podem surgir após a perda.

“Independentemente da idade gestacional, a perda pode provocar tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, dificuldade para dormir, irritabilidade e perda do interesse pelas atividades do dia a dia”, afirmou Negrini.

O especialista ressalta, entretanto, que sofrer intensamente nesse período não significa necessariamente que a mulher tenha desenvolvido uma doença psiquiátrica.

Até 20% das gestações podem não evoluir

De acordo com o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, integrante da comissão da Febrasgo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre 15% e 20% das gestações não evoluem.

Para o especialista, um dos principais pontos durante o processo de luto é evitar que a mulher enfrente a situação sem apoio.

“É um desafio passar por isso e é muito importante que a mulher não passe por isso sozinha”, afirmou.

Alterações hormonais também afetam a saúde mental

Além da dimensão emocional da perda gestacional, mudanças hormonais podem contribuir para alterações de humor e maior sensibilidade.

A psiquiatra Andréa Cristina Galastri, professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), explica que os níveis hormonais aumentam durante a gravidez e diminuem rapidamente após a interrupção da gestação.

Segundo a médica, essas alterações podem permanecer por aproximadamente 15 dias.

“Junto à queda hormonal, que seria igual a uma TPM, só que maior, tem a questão da sensibilidade da perda”, explicou.

Quando o sofrimento se torna sinal de alerta

O período de luto varia de uma pessoa para outra. No entanto, determinados comportamentos podem indicar a necessidade de avaliação médica ou psicológica.

Entre os sinais de alerta estão a interrupção da alimentação, dificuldades persistentes para dormir, choro constante, incapacidade de trabalhar ou realizar tarefas cotidianas e pensamentos de que a vida perdeu o sentido.

Para Andréa Galastri, a duração e a intensidade desses sintomas precisam ser observadas.

“O sofrimento é esperado e é natural. Mas a paralisia da vida, não”, afirmou a psiquiatra.

Quando o quadro evolui para depressão ou um processo prolongado e incapacitante de luto, psicoterapia e, em alguns casos, medicamentos podem ser indicados após avaliação profissional.

Médicos precisam acompanhar a mulher após a perda

Eduardo Felix Martins Santana defende que profissionais de saúde tenham uma postura ativa no acompanhamento de pacientes que passaram por uma perda gestacional.

Segundo ele, a mulher pode vivenciar diferentes momentos, como negação, raiva e tristeza profunda, e todos eles demandam acolhimento.

“A verdade é que, para todos eles, a gente precisa de acolhimento”, ressaltou.

O médico também chama atenção para a importância de ampliar a assistência especializada em diferentes regiões do país.

“Se formos esperar a paciente retornar ao consultório quando já está deprimida, vamos perder muita gente”, alertou.

Rede de apoio pode fazer diferença durante o luto

Atualmente com 34 anos e vivendo em Campinas, no interior de São Paulo, Kalyane Ribeiro encontrou apoio tanto no acompanhamento profissional quanto na troca de experiências com outras mulheres.

A partir de sua atuação nas redes sociais, ela criou uma comunidade dedicada a mulheres que passaram por perdas gestacionais.

Segundo Kalyane, muitas participantes procuravam justamente um ambiente no qual pudessem falar sobre suas experiências sem julgamentos.

“Não é todo mundo que está preparado para ouvir e lidar com esse sentimento. Eu abri essa conta no TikTok e comecei a me conectar com as mulheres que passaram por isso”, contou.

A experiência também deu origem ao livro Ainda me Sinto Mãe, com textos relacionados às vivências de Kalyane e de outras mulheres que enfrentaram a perda gestacional.

Onde buscar ajuda

Pessoas que apresentam pensamentos de morte ou vontade de acabar com a própria vida devem procurar ajuda imediatamente. Familiares, amigos e pessoas de confiança também podem contribuir para que quem está em sofrimento tenha acesso ao atendimento adequado.

De acordo com o Ministério da Saúde, podem ser procurados os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), prontos-socorros e hospitais.

Em situações de emergência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, além de atendimento por chat e outros canais disponibilizados em seu site oficial.

Reconhecer o sofrimento e oferecer acolhimento pode fazer diferença para mulheres que enfrentam uma perda gestacional.

Fonte: Agência Brasil