Chuva forte e uma enorme enxurrada se forma, barrenta e agitada. Entra por dentro de um bueiro e lá longe deságua num riacho de águas límpidas, quase transparentes. Misturando-se com a água cristalina do riacho. E segue o diálogo:
Eu – “Olá água do riacho, que conversar comigo?”
Água do Riacho: “Quero, mas não tenho muito tempo.”
Eu – Por que você permitiu a entrada da água barrenta em seu leito, já que suas águas são tão cristalinas?”
Água do Riacho – “É como se eu fosse capaz de fazer uma simbiose, uma mistura. Aceito a água barrenta porque não é grande a quantidade e me misturo bem com ela e a transformo em água límpida.”
Eu – “Você não tem medo desta mistura insana?
Água do Riacho – Não tenho medo , não. Vou diluindo o barro ao longo do caminho e mesmo diante das correntezas eu prevaleço sobre o barro.”
Eu – “Mas, isto faz bem para você?”
Água do Riacho – “Não é bom, nem mau. São misturas que minha água processa que independem do meu querer. Elas podem acontecer sempre. Lógico que não gosto dos incômodos que a água barrenta provoca, mas quando elas vêm, não posso ficar esperando que a mistura suje minhas águas transparentes para sempre. Vou aceitando-as e diluindo-as como se processasse uma simbiose. E quando as águas do riacho se encontram com o mar, no final da minha correnteza, viramos uma só água. Entendeu? Assim é meu percurso, com águas cheias de lodo, mas que jamais as deixarei de transformar em águas límpidas e cristalinas. O pior deste percurso é que quando encontro correntezas,, nas descidas, c procuro conter toda a minha água dentro do leito. Se eu ultrapassar o meu leito vou penetrar, indevidamente, no leito do outro. E sou feliz assim do jeito que deslizo por entre as pedras do meu percurso, mesmo com as margens estreitas e descidas súbitas. Mas o encanto maior é quando eu deslizo por entre as pedras e encontro meu caminho de novo logo em seguida.”
Eu- “Gostei muito do diálogo que tivemos. Quando você voltará?”
Água do Riacho: “Não voltarei, continuarei deslizando no meu leito. Isto é meu desígnio!”
Izaura Varella
Em 15 de março de 2020.