Câncer de mama em homens é descoberto em estágio avançado

Levantamento nacional revela que mais de 62% dos homens com câncer de mama recebem diagnóstico nos estágios III e IV. Especialistas alertam para sinais que não devem ser ignorados.

O câncer de mama também atinge os homens e pode ser descoberto quando a doença já está em estágio avançado. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) revela que 62,29% dos pacientes masculinos com estadiamento registrado receberam o diagnóstico nos estágios III ou IV, reforçando a importância da identificação precoce dos sintomas.

Divulgado nesta terça-feira (13), durante a campanha Outubro Rosa, o estudo utilizou dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC), do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Entre 2020 e 2023, foram identificados mais de 163 mil registros de câncer de mama, dos quais 2.126 ocorreram em homens.

Quase 30% dos homens tinham metástase no diagnóstico

Um dos resultados que mais chamam a atenção é a proporção de pacientes diagnosticados no estágio IV, quando o câncer já se espalhou para outras partes do organismo, condição conhecida como metástase.

Entre os homens com estadiamento registrado, 29,95% estavam no estágio IV, contra 26,42% das mulheres. Já no estágio I, quando a doença é identificada mais cedo, os percentuais foram de 3,41% entre os homens e 5,45% entre as mulheres.

Confira a distribuição dos diagnósticos por estágio:

Estágio do câncerHomensMulheres
Estágio 016,82%12,78%
Estágio I3,41%5,45%
Estágio II17,48%20,20%
Estágio III32,34%35,15%
Estágio IV29,95%26,42%

Os estágios III e IV concentraram 62,29% dos diagnósticos masculinos e 61,57% dos femininos. Embora os percentuais sejam próximos, a maior frequência de metástases entre homens preocupa os especialistas.

“A população precisa saber que o câncer de mama pode acometer homens e, inclusive, ser também letal nesse público nos casos mais avançados”, alerta o radio-oncologista Wilson José de Almeida Jr., presidente da SBRT.

Por que homens demoram a descobrir o câncer de mama?

O desconhecimento sobre a possibilidade de homens desenvolverem câncer de mama é apontado como um dos principais fatores relacionados ao diagnóstico tardio.

Segundo Denise Ferreira, rádio-oncologista e diretora de Comunicação da SBRT, muitos pacientes deixam de procurar atendimento médico quando percebem alterações na região do peito.

Outro fator importante é a menor quantidade de tecido mamário masculino. Essa característica pode facilitar o comprometimento de estruturas próximas, como pele e músculos, mesmo quando o tumor ainda apresenta dimensões pequenas.

“Muitos demoram a procurar atendimento ao perceber alterações na região. Além disso, como possuem pouco tecido mamário, o tumor pode atingir estruturas próximas, como a pele ou músculos do peito, mesmo quando ainda é pequeno”, explica Denise.

Sinais de câncer de mama em homens exigem atenção

Mesmo sendo uma doença rara no público masculino, o câncer de mama apresenta sintomas que precisam ser investigados por um profissional de saúde.

Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Caroço ou nódulo na região da mama, especialmente próximo ao mamilo;
  • Alterações no formato ou na aparência do mamilo;
  • Saída espontânea de secreção pelo mamilo, principalmente com sangue;
  • Mudanças persistentes na pele da mama, como retrações ou feridas;
  • Aumento anormal de volume em uma das mamas.

A presença desses sintomas não significa necessariamente que a pessoa tenha câncer. Entretanto, qualquer alteração persistente deve ser avaliada por um médico, evitando atrasos no diagnóstico.

Quem apresenta maior risco de desenvolver a doença?

O câncer de mama masculino é raro e representa menos de 1% dos casos da doença, segundo informações apresentadas pela especialista.

Isso ocorre porque os homens possuem menor quantidade de tecido mamário e menor exposição ao estrogênio, hormônio relacionado ao desenvolvimento de diversos tumores mamários.

Apesar disso, alguns fatores podem aumentar o risco, como mutações genéticas hereditárias, histórico familiar de câncer de mama, obesidade e alterações hormonais.

Câncer de mama em homens tem tratamento e chances de cura

Embora o diagnóstico tardio represente um desafio, existem tratamentos eficazes para o câncer de mama masculino, especialmente quando a doença é identificada precocemente.

De acordo com Denise Ferreira, a cirurgia costuma ser o principal tratamento nos casos em que o tumor permanece localizado. Dependendo das características da doença, os médicos podem indicar também quimioterapia, hormonioterapia e radioterapia.

A radioterapia, por exemplo, pode ser utilizada após a cirurgia para diminuir o risco de retorno do câncer na região tratada.

“A radioterapia tem um papel importante, especialmente após a cirurgia, para reduzir o risco de retorno da doença na região tratada. Sua indicação depende do estágio do câncer e das características de cada paciente”, afirma a especialista.

Sobrevida pode ultrapassar 95% com diagnóstico precoce

As perspectivas de tratamento são favoráveis em muitos casos, principalmente quando o câncer é identificado antes de se espalhar para outras regiões do corpo.

Conforme dados apresentados pela SBRT, a sobrevida relativa em cinco anos dos homens com câncer de mama supera 80%, considerando todos os estágios da doença.

Quando o tumor é diagnosticado ainda restrito à mama, a sobrevida relativa em cinco anos pode ultrapassar 95%.

Os percentuais reforçam a importância de reconhecer os primeiros sinais da doença e procurar atendimento médico sem demora.

Mulheres jovens também enfrentam desafios no diagnóstico

Outro levantamento, realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), analisou quase 118 mil mulheres diagnosticadas com câncer de mama entre 2020 e 2023.

Entre as pacientes com até 39 anos, apenas 14,4% receberam o diagnóstico nos estágios 0 ou I. As demais 85,6% foram diagnosticadas nos estágios II, III ou IV.

O cirurgião oncológico e mastologista Juliano Rodrigues Cunha, diretor de Comunicação da SBCO, explica que o estágio II não representa necessariamente uma doença avançada. Ainda assim, os dados mostram a importância de investigar sintomas também em mulheres mais jovens.

“A diferença em relação às mulheres de maior idade reforça a importância de investigar alterações persistentes nas mamas, inclusive antes da idade recomendada para o início do rastreamento da população de risco habitual”, destaca Cunha.

Para mulheres sem fatores conhecidos de alto risco, sociedades médicas brasileiras recomendam o rastreamento por mamografia a partir dos 40 anos. Já pacientes com histórico familiar relevante ou alterações genéticas hereditárias podem necessitar de acompanhamento individualizado.

Outubro Rosa reforça importância da prevenção e do diagnóstico precoce

A campanha Outubro Rosa é uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre o câncer de mama, inclusive entre os homens, que muitas vezes desconhecem a possibilidade de desenvolver a doença.

Além da atenção aos sintomas, manter hábitos saudáveis, controlar o peso e realizar acompanhamento médico conforme os fatores individuais de risco são atitudes importantes para os cuidados com a saúde.

A principal orientação dos especialistas é clara: não ignore caroços, secreções ou alterações persistentes na região das mamas. A investigação precoce pode ampliar as opções de tratamento e melhorar as perspectivas dos pacientes.

Fonte: Agência Brasil