UMA MULHER CHORANDO

Estava em algum lugar que não vou dizer onde, mergulhada no silêncio quente de um fim de tarde, diante de uma paisagem deslumbrante a se perder no horizonte azul de um mar calmo. Um ruído repetitivo, um som vindo do lado, lembrava um ensaio de uma peça de teatro, ou uma televisão exibindo algum filme. Deixei-me aprofundar no barulho para buscar entender de onde partia aquele som abafado. Fui buscando pelo ouvido aguçado a sua origem. Parei numa janela que dava para a parede de um prédio do outro lado e percebi tratar-se de um choro, de um pranto, cheio de soluços. Quanto mais próximo fui chegando mais nítido se tornava aquele pranto, revelando uma profunda tristeza. Uma mulher chorava copiosamente, eu não a via, mas eu a ouvia, chorava, soluçando alto; era um choro tão desesperador, tão triste, de abandono e solidão. Ninguém a perturbava, ela somente chorava com toda a força de seus pulmões e aquele choro interminável prolongou-se por muitos minutos. Era a vizinha de apartamento e só depois soube que ela chorava durante uma crise de profunda depressão. A família toda estava ali, mas ninguém conseguia atingir a sua alma. Deixaram-na chorar. Mais tarde a percebi na varanda também contemplando o mar. O seu olhar não olhava nada, apoiada no braço da cadeira e o queixo entre as mãos. Discretamente me afastei para me poupar daquela cena triste que jamais desejaria para alguém da minha família.

O que se passava pelo inteiro, vasto e profundo recôndito daquela alma triste? Que tristezas eram estas que brotavam de seu coração? Rodeada de gente e tão sozinha, absolutamente só.

Ela parecia aquela mulher que durante uma aula que tratava das emoções humanas, o professor falava que se deveria ter objetivos e ser persistentes nos nossos sonhos. O professor contava uma história de três leões que deveriam subir uma montanha. O primeiro leão tentou, tentou e mal conseguiu dar a primeira passada e já se esborrachou no chão. O segundo leão tentou subir aquela íngreme montanha e tentou, tentou, chegou até a metade e acabou desistindo da jornada. O terceiro leão também tentou chegar ao pico da montanha e insistentemente, esforçou-se para chegar ao cume. Tentou e continuou tentando para alcançar aquele objetivo. Aí o professor perguntou para aquela platéia com qual dos três leões os ouvintes se identificavam. Uma mulher respondeu, depois de ouvir a historia atentamente: “Porque eu devo subir a montanha”?

Chegar ao cume, continuar a jornada para aquela aluna era tão indiferente, tão sem significado chegar ao alto, porque ela não tinha forças para cumprir seu destino. Ela se abandonou! Então, por que chegar lá? Talvez porque a intenção mais profunda da alma daquela mulher não fosse buscar a felicidade. Ela poderia, ao contrário, estar querendo se encontrar com si mesma numa jornada de frustração, de exílio, para tenham pena dela e de seu sofrimento.

Se deixarmos que os fantasmas que nos rodeiam tomem conta de nós, e fiquemos a lamentar a juventude esvaída no tempo, se precisarmos constantemente que nos aprovem para nos sentirmos amados, se nos deixarmos levar pelos problemas cotidianos que nos afligem, mais a solidão tomará conta de nós. É preciso ser melhor que tudo isto, afastar as situações frustrantes que nos cegam, desapegar-se dos complexos torturantes do passado com a força da vida e com a vontade de viver, porque nada ainda foi terminado, não há ponto final. Nós somos muito mais do que a soma de tudo que nos aconteceu.

Somos muito maiores, grandiosos, porque temos fé, temos Deus que nos ampara e Ele sim, é nosso lenço para enxugar nossas lágrimas. Será que aquela mulher que chorava acredita em Deus?

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