TONI NABHAN, UM LEGÍTIMO PIONEIRO DE CIANORTE

Tome o meu lugar e pense que você tem um amigo que desde a sua adolescência, (e lá se vão muitos anos, mais de cinco décadas), e de repente você recebe a notícia que este amigo, você nunca mais verá, nunca mais vai ouvir a sua voz, nunca mais vai ser atendida em sua loja para lhe mostrar as últimas roupas e novidades que recebeu… A tristeza toma conta de seu coração e, pior, não há o que fazer. Se eu soubesse que sua parada final estava próxima, sem dúvida, eu iria lá onde ele estava, e lhe daria o mais apertado, o mais amigo e sincero abraço, apertaria suas mãos que trabalharam tanto nesta vida, e diria: “Vá em paz amigo, e de lá, (e certamente, você vai estar do lado DAQUELE QUE TUDO DECIDE), vai ainda ser muito útil, protegendo sua descendência.”

A adolescente que eu fui morava ao lado de sua casa, éramos vizinhos. Uma das primeiras lojas de Cianorte, “A Libanesa”, era um verdadeiro bazar. Seu Mitre Nabhan, o pai deste amigo meu do coração Toni Abou Nabhan, era um grande comerciante, embora calado. Alto, magro, até me lembra seu filho caçula Cheble Nabhan, cabelos pretos, sem um fio branco, ia para São Paulo buscar as mercadorias para vender na loja e onde houvesse clientes interessados. Ficava dias fora, com os meios de transportes precários, estradas sem asfalto, ônibus de vez em quando. Ali mesmo na Praça 26 de Julho ele embarcava no ônibus do Garcia e ia mundo afora. Precisava sustentar a família que deixara numa casa de madeira, vizinha do bar do meu pai: Bar Lux, na Avenida Lovat, antes, e depois Avenida Souza Naves. Dona Saada, grande amiga da minha mãe trocavam conversas na cerca de balaústre que separava as propriedades. Assim ela foi criando seus filhos: Jane que logo se casou e foi embora, depois o Fariz, que tão logo alcançou maioridade foi para o Líbano para buscar sua linda Teresa, meu amigo Toni, Teresa e Cheble, o caçula, que no balcão da loja me dizia que queria ser general! E foi o general da confecção!

Quantas vezes falei com aquele menino tímido pela cerca de balaústre sob a severidade dos costumes morais libaneses, meu querido amigo Toni. Cristãos para minha surpresa! Toni logo cedo atendia no balcão da loja e se alguém entendia alguma coisa de compra e venda era o Toni. Até que um dia ele foi para São Paulo para completar seus estudos e meu irmão Valdomiro morava com ele, numa casa de família. Toni era focado no comércio, mas, não era nenhum mercenário, pelo contrário, no seu silêncio e discrição, era muito generoso. Excelente negociante que conhecia seu cliente por dentro e sabia exatamente que ele procurava e o quanto poderia pagar. E aí o Toni voltou de São Paulo com seu diploma para ajudar seus pais na loja que passou a chamar-se A Brasileira. O Fariz já tinha seu próprio negócio e o acaso acabou colocando o Toni na administração da loja desde solteiro, até encontrar-se com sua linda Clementina, viver tantos anos, construir uma família digna, com genro, noras, netos. Nunca presenciei nenhuma cena do Toni onde levantava a voz, sempre delicado, educado, simples, mas, sabendo exatamente o que estava fazendo. m centrado! Pessoas boas não deveriam ir embora tão cedo, mas permanecer entre nós demonstrando seu exemplo de bom pai, bom marido e bom comerciante! E posso dizer com segurança um excelente vizinho meu e que muitas vezes me surpreendeu, nas manhãs de domingo, quando ia para a cozinha para manter a sua tradição de comida árabe, mandava para mim aquelas esfirras maravilhosas que ele mesmo fazia!

Este luto vai permanecer eternamente na família do Toni e no coração dos amigos que lhe queriam bem, sempre Toni fará falta, porém, Deus tem um recurso que se chama conformação e devagar Ele nos faz aceitar a sua vontade. Nenhum cidadão cianortense poderá virar a página da história que trouxe ainda pequeno este libanês para nossa cidade e com seu trabalho e criatividade ajudou a impulsionar a indústria da confecção, com a sua saudosa marca Mackson. Um pioneiro que viu a mata ser derrubada, que viu a ruas de areia ser substituídas por asfalto, que viveu cada etapa e progresso da história de Cianorte ser construída e que, finalmente, ao encerrar o seu tempo por aqui deixou um exemplo incomparável de dignidade, honradez, de amor à família e amor a Deus.

A vida é demasiadamente imprevisível! Triste ver tudo mudar de repente e aceitar a realidade do tempo que leva uma pessoa tão especial consigo, pessoa que amava de coração. Descanse em paz meu amigo Toni Nabhan! E que as bênçãos do conforto recaiam sobre sua família!

Izaura Varella

Pioneira cianortense

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