SOB AS SOMBRAS DAS PEROBAS DA MINHA TERRA

No ano de 2.017 comecei a escrever um livro, (que tarefa desafiadora!) para garantir que a história de Cianorte não se perdesse pelo tempo. Juntei entrevistas, recortes de jornais, revistas antigas, depoimentos pessoais, pesquisas, revolvi minhas lembranças e da minha família, em especial, as lembranças do meu esposo, que a história registrou como filho primogênito do primeiro prefeito da cidade. Desde o primeiro momento que Cianorte respirou os novos ares de sua fundação fomos acompanhando, pessoalmente, os acontecimentos políticos e históricos que, sem dúvida, construíram a cidade. A mata nativa ao redor daquela meia dúzia de casas garantia a beleza da paisagem e a terra branca, arenosa, das ruas sem asfalto, acariciava a sola de nossos pés descalços. Os troncos das perobas derrubadas jaziam no meio da Avenida Lovat, que mais tarde seria chamada de Avenida Souza Naves e no entardecer, quando a Lua ainda teimava em aparecer, um grupo tresloucado de meninas e meninos corriam, se divertindo, na brincadeira inocente de se esconder atrás dos tocos queimados.

A peroba era uma árvore abundante na nossa região e sua madeira era aproveitada na carpintaria, com a construção das primeiras casas de tábuas e até como blocos de sustentação de pontes. E foi à sombra destas perobas centenárias que meu pai construiu sua família, educando seus filhos com o rigor moral de então. E a vida foi passando com suas tragédias e alegrias, mas as memórias dos primeiros anos de vida de Cianorte é uma paisagem que me acompanha vida afora. Faz parte e sentido da minha alma, de uma infância e adolescência vivida diariamente, ouvindo o som da Ave Maria dos finais de tarde, pelo alto falante da Avenida Goiás, de uma escapada pelo primeiro cinema, onde o filme encantador, parava de ser projetado para que o alemão consertasse a fita que arrebentara.A paisagem antiga que indica as rezas e terços feitos nas poucas casas da época, e mais tarde as Missas celebradas no nova Igrejinha no Largo João XXIII, as longas procissões com velas na mão, encapadas com papel para não se apagarem com o vento e outras visões maravilhosas fazem parte do passado. Porém, um passado que jamais deverá ser esquecido pelos filhos desta terra. A população em sua maioria não viu Cianorte nascer, mas constroi com seu trabalho diário a história atual da cidade.

Justamente, para que a história não se perdesse no tempo, considerando que a maioria dos pioneiros já morreu e levou consigo suas histórias, vi-me empurrada pra garantir a perpetuidade da história de Cianorte, tão somente, porque ninguém se propôs a fazê-lo, entre os meus contemporâneos. Foi aí que surgiu SOB AS SOMBRAS DAS PEROBAS DA MINHA TERRA, um livro com 720 páginas, que fala sobre os acontecimentos dos primeiros vinte anos de Cianorte. Claro, que muitos não foram citados, claro que muitas histórias não foram contadas, afinal perpetuei tão somente as lembranças que estavam ao meu alcance.

E agora o livro foi publicado! Quando chegar o dia em que não estarei mais aqui, posso descansar em paz, pois construí uma igreja, escrevi um livro e plantei uma árvore!

Izaura Varella

Professora e Advogada

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