SER JARDINEIRA

O roseiral em frente da velha casa de madeira no meio do nada era enorme. As rosas desabrochavam nas mais diversas variedades e cores e exalavam ao sol quente um perfume suave. A terra era fértil, pois, a mata acabava de ser derrubada e era alimentada pelos resquícios de flores e paus podres; a mata morria, mas dava vida a um jardim. Em todas as épocas do ano o roseiral era generoso e não faltavam rosas nos vasos de dentro da casa simples. Andava por aí tantas vezes ao dia, semeando sonhos e pensando que um dia deixaria de ser criança e que um dia teria que entrar pelo caminho real da vida. Pensava nos espinhos das rosas, como se fossem agulhas finas que não só poderiam ferir, mas rasgar a pele também, tais como são assim as feridas da alma. Mas medo de espinhos e dos ferimentos não havia, eis que a ingênua criatura que vagava pelo roseiral tinha apenas seis ou sete anos e jamais sonhava em alcançar a plenitude de um futuro distante. E o passeio pelo roseiral despertou uma paixão: ser jardineira. Seu tamanho não alcançava o cabo de uma ferramenta, e sequer sabia manipular uma tesoura de poda, mas o desejo infinito, sem medida, tomou sua alma, pois ser jardineira significava cuidar de um jardim que precisava de carícias especiais, para que as flores se abrissem a cada luz do sol. Cultivando este sonho de ser jardineira, a vida passou como um breve relâmpago e o sonho de infância se concretizou. Nada de enxada, mas um lápis na mão, nada de tesoura, nada de poda. Mas um caderno e o ensinamento diário preencheu sua vida de jovem e adulta. Acabou cultivando uma profissão tão semelhante ao ser jardineira, que acompanhou alfabetização de crianças ao longo de seu caminho, ensinou tudo aquilo que aprendeu na vida para ser professora. Ser professora é uma profissão semelhante ao ser jardineira. Podam-se, as folhas para colocar limites, assim como se põem água na medida necessária para que a planta não morra e põem-se seus ensinamentos diariamente para que as crianças tenham vida, motiva-se a aula com brincadeiras, eis que a vida é uma máquina de risadas e também de desgosto; porém, o florescer na primavera torna o jardim muito mais belo e acolhedor e estar na sala de aula com dedicação e amor, cultiva-se a pureza do ser humano. Daí não só nascem rosas perfumadas e de todas as cores, mas, crescem crianças sensíveis à dor do outro, solidárias, querendo dividir o pão, e garantir que o mandamento “amai o próximo como a ti mesmo” seja cumprido cheio de generosidade.

Bendito o momento em que se descobre jardineira de rosas e depois de almas!

Izaura Varella

Em 17 de novembro de 2019.

Compartilhe: