POR QUE PESSOAS BOAS SE VÃO?

THERESE TANIOS FARAH NABHAN

Meu pai era proprietário do Bar Lux, na Avenida Souza Naves, ao lado da Loja ‘A Libanesa’, no final dos anos 50. Esta loja de armarinhos pertencia ao casal Mitre Amin Abou Nabhan e Saad Nabhan, ela, amiga da minha mãe. O fundo das duas propriedades era separado por uma cerca de madeira e por ela ambas batiam papos longos. Foi através da cerca de madeira que conheci Therese, uma doce menina que mal tinha completado 15 anos e que viera do Líbano. Pele branca, perfeita e cabelos ondulados, olhos pretos graúdos. O filho mais velho do casal Nabhan, Fariz Mitre Abou Nabhan, para manter a tradição libanesa foi para o Líbano em busca daquela esposa, ainda tão jovem, a linda Therese e a trouxe para o Brasil, sem falar o idioma português. E nossa família, curiosa, não via a hora do Fariz voltar para conhecer a linda libanesa que traria consigo. Pela cerca de balaústres fomos conversando ao longo dos nossos dias de juventude, ela tropeçando nas palavras e eu tentando entender aquele linguajar tão complicado, Ela ajudava D. Saad a fazer bolinhos de carne de carneiro, apetitosos, que minha mãe trocava na cerca, por bolos de fubá.

Therese era muito discreta, tímida, falava pouco, em seus primeiros anos aqui e curiosa procurava entender aquele mundo misterioso ao qual pertenceria, definitivamente, por toda a vida. Não era a sua Pátria, costumes desiguais, encontrou nesta terra tão distante e diferente da sua, onde os véus sobre os olhos não eram necessários, onde a mata virgem estava em pé e a terra de areia se enroscava nos dedos. A menina tímida, discreta falava pouco e tão logo aprendeu um pouco do nosso vocabulário, já trabalhava no balcão da loja. Eis que uma notícia alvissareira chegou para a família e para todos os vizinhos. Estava grávida. Quis Deus que nascesse seu primogênito, hoje nosso Vice Prefeito de Cianorte, quem diria? E um nome lhe foi dado: Alberto, nosso querido amigo Beto Nabhan! E os filhos foram se sucedendo: Admir, Alonir e Alexandre, todos eles casados, com famílias distintas e todos criando seus filhos com o mesmo amor que Therese deixou como exemplo. E até a Maria teve um espaço valioso em sua vida!

Tem momentos em que a vida é injusta conosco… Quando vamos envelhecendo, nossas tarefas diminuem, pensamos mais em nós mesmos, olhamos a vida de forma que ainda possa ser desfrutada, nossa família é nosso porto seguro; o envelhecimento é o momento melhor para que pensemos em nós mesmos, pois, é um momento de remissão, de perdão, de encontrar-se consigo mesmo, momento de perdoar a si e aos outros e tocar para frente os dias que nos faltam viver, sem aborrecimentos. Por que então, Therese que estava nesta fase de usufruto do bem que plantou pela sua existência afora, teve que ir de vez? Porque a nossa existência não faz concessão com ninguém, pois, como diz São Paulo: “Somos cidadãos do céu”. Quem viveu o amor de Cristo, e disto tenho certeza que Therese viveu, é claro que estará eternamente unido a Deus. Therese teve o carinho do esposo, dos filhos, das noras, dos netos, de seus parentes e dos amigos até o último suspiro, todos sem exceção! Ela se foi no momento certo que Deus reservou a ela.

E aqui ficamos chorando a sua ausência, porque chorar não é só um sinal de dor, mas de amor, de solidariedade, de afeto, de carinho com a amiga que se foi. Chorar é bom, lava a alma, lava o coração, alivia a nossa dor, porque ela, sabemos, está em paz; a sua generosidade, a sua complacência com a dor do outro, o seu amor pela família já está nos apontamentos de Deus. Ele a recebeu com o melhor abraço em sua Casa e ela é feliz para sempre!

Izaura Varella

Compartilhe: