Por que juntamos tantas coisas materiais se elas não nos pertencem?

Um dia destes conversando com minha amiga de tantos anos Neiry Schiavinatto, ela refletia sobre a perenidade das coisas, como somos frágeis diante da vida que acaba um dia e quando acaba, tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo de nossa existência, nada vai conosco. As roupas, as joias, os copos de cristal, os quadros, nossos crochês, o nosso dinheiro acumulado, nossas contas no banco, nosso patrimônio material, nossos artefatos feitos com tanto esmero vão ficar onde os deixamos e nós, sem dúvida, e vamos para o nunca mais. Quiçá usem o dinheiro do inventário para pagar nosso caixão, nossa definitiva morada, uma cova funda e depois uma lápide bem linda para não deixar ninguém daqueles que ficaram com nossos bens, com remorsos.

Somos felizes acumulando coisas? Só recentemente geriatras e psiquiatras começaram a falar na Síndrome de Diógenes. Diógenes de Sínope era um filósofo grego antigo, um cínico, que supostamente morava dentro de um grande vaso ou um barril nas ruas. Fazia da sua pobreza extrema uma virtude em Atenas, capital da Grécia, se tornou um mendigo que perambulava sem rumo carregando uma lamparina, alegando estar procurando um homem que fosse honesto, que tivesse encontrado verdadeiramente a sua essência, sua verdadeira natureza e que tivesse desapego com o dinheiro, com luxo, conforto e bens materiais. Ele pregava uma vida natural que não fosse permeada de luxúrias. Acreditava que a pessoa só é livre plenamente, quando não se deixa dominar pelas necessidades de conforto e prazer. Só assim o homem seria livre! Diógenes era um desprendido dos bens materiais que não lhe faziam falta. Não acumulava vestes, pois, bastava-lhe a que usava tão somente.

E aí perguntamos quanto vale a nossa felicidade? Ser feliz é acumular patrimônio? Para sermos felizes é necessário ter um quarto de vestir só para guardar nossas roupas? Aí olha para armário de vestir e encontra mais de cem blusas, e pelo menos umas trinta calças de cores diferentes para combinar com as blusas também diferentes. E folheia o álbum de fotografias onde reconhece a mesma blusa que veste e que foi usada numa viagem de quinze anos atrás! E do outro lado do armário descobre-se uma quantidade incontável de casacos de frio, e mora num lugar em que os dias de baixas temperaturas não se contam mais de dez ao ano. E os sapatos pendurados no armário do fundo, com saltos, sem saltos, sapatilhas, quando bastava apenas um par, ou dois pares, para proteger seus pés. Ter cinco pares de tênis para caminhadas quando seus pés só calçam um par de cada vez… Ora, e para que servem tantos sapatos de salto? E constata que as festas que mereceram aqueles dez sapatos de salto, não passaram de cinco ao ano. Basta tão somente, ter o necessário para vivermos bem!

De repente, nos damos conta que somos acumuladores de objetos que sem eles viveríamos plenamente e não fariam falta. Diógenes nos ensinou a lição da autossuficiência. Desnecessários tantos bens materiais, que certamente, serão deixados para trás, para que outros desfrutem destes bens. Então, aquele que acumulou bens para si ao longo da vida teve que renunciar a todos eles quando o momento de partir chegou e não pediu licença. A Síndrome de Diógenes identifica o acumulador compulsivo que tem dificuldade de livrar-se dos objetos que guardou. O acúmulo de bens nos deixa egoístas e esquecemos que repartir o pão é bíblico; Jesus não só repartiu o pão como o multiplicou, depois do desapego daqueles que não tinham o que comer. Não estamos aqui dando santidade à pobreza, porém, o acúmulo de objetos pelo simples apego material é a versão egoísta do ser humano: posso precisar deles mais tarde. Quando? Esquece que a vida é efêmera e não existe no calendário a data marcada para ser descartado por ela!

Quando descobrir que acumulamos coisas que sempre nos deixarão mais pesados e praticarmos o desapego ficaremos bem próximos da divindade!

Izaura Varella

Cianorte, 1º de dezembro de 2018.

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