OLHANDO NO ESPELHO

“Não acuses o espelho; quem faz a careta és tu.” (Provérbio Russo)

Já se dizia há muito tempo: o rosto é o espelho da alma. Ao olhar-se no espelho pode-se ver uma figura descabelada, necessitando urgente de um bom corte de cabelo. A pele cheia de manchas clama por cuidados, o sorriso ausente mostra o amargor da vida. Ora, depende tão somente da forma que se enfrenta o espelho. Se a expectativa diante da vida é esperançosa, pode-se encontrar no espelho o melhor sorriso e o cândido olhar de uma pessoa absolutamente feliz. Não deixe o rancor entrar pela imagem do espelho diário, isto somente trará tristeza e rancor. Um rosto acolhedor comove e solidifica a amizade e o elo que existe entre as pessoas. Experimente bater na porta de alguém que o recebe sem manifestar nenhuma impressão de acolhimento…

Nesta época de sorrisos largos, acolhimento em abundância, compreensão para ouvir longas histórias trás as eleições municipais de volta. Todos são bons, são empreendedores, não tem defeitos. Todos buscam sublimar a própria imagem, porque desejam o reconhecimento de suas intenções. Até acredito que tenham mesmo ótimas intenções que venham até mais tarde acariciar o próprio ego. Mas na maioria das vezes se trata de um propósito pessoal para superar as próprias inseguranças. Vencer pode significar a busca da afirmação pessoal. Isto não é mau. Quando a pessoa torna-se segura, seu olhar contemplativo de antes passa a ser trampolim para novos saltos. Bem poucos se conformam apenas com o que tem. Olhar-se no espelho com olhar de esperança não pode trazer de volta a feição pesada de antes. Afirmar-se numa sociedade que cobra tanto os resultados é mesmo um grande desafio.

Esta conversa me faz lembrar uma historinha da minha infância que as freiras contavam no intervalo das aulas. Todos ficavam atentos ouvindo a história da casa de mil espelhos. E um dia um cãozinho feliz, com a cauda balançando subiu os degraus da desta casa e se deparou com mil cãezinhos sorridentes, balançando as caudas e felizes. Latiu de alegria e na hora que latiu outros mil pequenos cães latiram também, devolvendo a alegria do sorriso. O pequeno cão foi embora muito alegre prometendo voltar mais vezes na casa de mil espelhos onde tinha mil amiguinhos também balançando o rabo. No outro dia a casa dos mil espelhos abriu a porta e permitiu a entrada de um cão raivoso, bravo, desconfiado e agressivo, latindo sem parar. E ele deparou-se com outros mil cães de dentes e focinhos arreganhados, mostrando fúria e descontentamento. Saiu rapidamente pulado os degraus da escada pensando que nunca mais voltaria naquele lugar horrível onde só havia cães bravos e raivosos.

Lógico que isto é uma lenda. Mas, as freiras do meu colégio tinham razão em contar estas histórias pitorescas para nós. Elas queriam que nós nos olhássemos nos espelhos da vida e ali pudessem encontrar os diversos rostos, alegres, antipáticos, amargos, doces, cândidos e furiosos e saber defini-los qual o melhor seria!

Izaura Varella

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