O FIM DO MUNDO

Calma gente, não estou falando que o mundo vai acabar, aliás, não me interesso muito pelo fim do mundo porque tenho certeza que antes que o mundo acabe eu já parti para outras plagas há muito tempo. Estou falando do fim do mundo, em Portugal, no final dos anos 1.498, 1.499 e idos de 1.500, quando as grandes navegações por mundos muito desconhecidos, além-mar, estavam, ousando navegar pelas águas do Oceano Atlântico, mar adentro, com direção ao oeste. A região mais ao sul de Portugal é a ponta da Europa mais para dentro do oceano. Um grande cabo chamado Cabo de São Vicente. De lá partiam as caravelas frágeis, tocadas ao vento, tão somente, e os tripulantes eram pessoas que queriam muito dinheiro de recompensa ou que quisessem muito a própria liberdade, os condenados. Estes condenados concordavam viajar dentro das caravelas, mar a fora, correndo perigos inimagináveis, para se verem livres da prisão quando voltassem, isto é, se voltassem desta grande aventura por estas enormes e caudalosas águas salgadas. Homens jovens, saindo dos vinte anos e entrando nos trinta, partiam em busca de riquezas, grande desejo dos reis de Portugal. Quando penso que um país tão pequeno como Portugal foi palco das incríveis navegações, me surpreendo, num tempo em que o único objeto de localização era as estrelas e a bússola, um aparelho que indicava o ponto cardeal Norte, trazido do oriente. Prática todos tinham, esperanças todos tinham, mas ninguém seria capaz de garantir o retorno de todos e o retorno da própria caravela. Pois lá, no Cabo São Vicente, do Porto de Sagres em Portugal, pude sentir porque os europeus de então, chamavam aquela área de “fim do mundo”. De fato, o era. Antes das descobertas das terras americanas do Caribe e depois na América Sul, ninguém poderia afirmar que havia terra do outro do mar. Ainda mais quando muitos acreditavam que a Terra era um quadrado sustentado por quatro elefantes, e dos lados, abismos. Havia dúvida se a Terra era realmente redonda. Estar no Cabo Vicente, de braços abertos voltados para o mar, tem um enorme significado para quem já professora de Geografia.

A curiosidade do Professor de Geografia é estranha, porque ele não se contenta conhecer tão somente o mapa do local. Ele quer estar lá, com o pé no chão, sentir a brisa do mar mexer com seus cabelos, olhar para céu e ver as mesmas estrelas ao sul, que via na Linha do Equador. O professor de Geografia não se conforma em olhar para a linha do horizonte sem desconfiar que a linha tem curvatura e que a Terra que vivemos é um grande planeta redondo que gira neste espaço imensurável do Universo. Estão aí guardados todos os segredos da Geografia. E foi a Geografia que me conduziu a conhecer outro fim do mundo… A região da Patagônia, ao sul extremo da Argentina, permite que Ushuaia seja a última cidade do mundo ao sul do planeta. O único e último lugar habitável do planeta Terra. E como professora estive neste último recanto da Terra e mais, andei, pelas águas geladas a do continente antártico. Na Antártida, na Base de Marambio, pus meu pé gelado a -17º! Assim conheci o segundo lugar considerado fim do mundo! Não morri, estou aqui, aguardando chegar o fim do mundo verdadeiro!

Izaura Varella

Em 17 de maio de 2.019

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