O EFÊMERO IPÊ ROSA DA MINHA RUA

 

Faz algum tempo que eu ando de olho num pé de ipê rosa que fica na esquina da minha casa, acho que bem uns 40 anos. Tornou-se uma árvore frondosa e semanas atrás vi cair as suas folhas uma por uma, e o ipê desvalido ficou com as pontas dos galhos apontando para o alto, solitário e sem cor. Sempre achei que os ipês não são ateus, apontam para cima a galhada sem folhas e tristonhas e Deus recompensa a árvore seca com uma explosão de botões. Bastou à chuva chegar que os botões se abriram todos de uma vez e suas flores se abriram com um toque cor de rosa deslumbrante! E eu dizia prá mim mesmo: como a natureza é coordenada, planejada, perfeita. Bastou os galhos secos de o ipê clamar para o Alto e a imensidão do rosa das flores tingiu toda a galhada, não dando espaço para nenhuma folha verde. Tão somente flores! Lindas flores que deu o encanto à paisagem. Não deu mais que vinte e quatro horas as flores começaram a se fragilizarem e caírem devagar num dia, rápido no outro e depois de uma semana todas as flores tingiram a calçada de cor de rosa. A calçada seca e sem graça, encheu-se de flores, pois, toda a sua copa tocou o chão. A beleza debruçou-se sobre a sujeira da calçada e a rejuvenesceu. Transformou a calçada sem graça numa paisagem encantadora.

Eu fiquei aqui pensado na efemeridade da vida, seja conosco, com a vida humana, seja com a vida dos animais, seja com as plantas. Tudo desvanece um dia, em muito tempo, em pouco tempo, portanto, nada é perene, nada é para sempre. Deslumbrada com a beleza e o brilho das flores na calçada, sendo pisadas pelos carros, motos, bicicletas, pedestres, fiquei diante de uma realidade cruel e constatei a verdade que um dia tudo se acaba. Muitas vezes somos pisados, abandonados, desprezados, mas, nada é para sempre. Assim como os cargos, as condecorações, a fama são de rápida passagem!

Entretanto, no fundo do túnel da vida sempre haverá uma luz que trará a verdade de volta. A dor se extingue, mas a felicidade também tem tempo certo para estar conosco. É uma sucessão de idas e vindas! Por isto mesmo temos que viver o efêmero com verdade e profundidade, aprendendo a fazer fluir o que a vida nos propõe sem criar expectativas. Nenhuma amizade, nenhum amor, nenhuma família, nenhum encanto duram para sempre. Somos flores de ipê caídas na calçada da vida!

Izaura Varella

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