“O crack é uma droga que traz desalinho às famílias”, Nilson Rodrigues

Esse mês ele completa um ano no comando da Polícia Civil em Cianorte. O delegado Nilson Rodrigues da Silva, 59 anos, fala com orgulho de seu trabalho na 51ª Delegacia de Polícia Civil de Cianorte. Ele compara dados da redução em alguns casos de criminalidade e lembra as inúmeras melhorias que fez na estrutura da delegacia, ressaltando o bom trabalho de sua equipe.

E depois de duas décadas de experiência ele garante que ainda trabalha com humanismo. Mesmo encarando todos os dias casos de violência e superando a falta de estrutura adequada, comum na maioria das cidades do interior.

Nilson Rodrigues começou a carreira policial em 1994 em Paranacity. Depois passou por Maringá, Nova Esperança e Umuarama. Ele trabalhou por mais de dez anos em Maringá e guarda com carinho lembranças de casos significantes que são citados até hoje pela imprensa policial. Assim como ri do folclore de casos que, quando contados, geram dúvida.

A Folha Regional de Cianorte entrevistou o delegado Nilson Rodrigues na estreia da coluna Entrevista Especial, que visa aproximar mais personalidades cianortenses da comunidade.

Textos e fotos: Andye Iore

FOLHA DE CIANORTE – Qual o seu maior desafio no comando da Polícia Civil em Cianorte?
NILSON RODRIGUES – O principal desafio da segurança pública em Cianorte desde quando eu cheguei, e o carro chefe no trabalho de qualquer delegado, é o combate à droga. Porque ela acaba influenciando outros crimes, principalmente o furto e roubo.

Quais são as dificuldades para fazer esse trabalho?
A dificuldade não é só no combate à droga. Mas hoje temos dificuldades em qualquer tipo de crime. Nós chegamos no local do crime e tem dificuldade em encontrar testemunha dos fatos do crime.  A pessoa até viu o crime, mas alega não ter conhecimento. Isso temerosa em ser chamada na polícia ou consequentemente ao Fórum para prestar depoimento. Essa é uma fase complicada por parte da polícia. O recolhimento das provas no local dos fatos. Outra dificuldade é o contingente que é pequeno em certas cidades. Mas creio que não é motivo pro delegado reclamar e não combater o crime. Ele tem que buscar meios para trabalhar. Como fazemos aqui em Cianorte em parceria com a Polícia Militar. Outro fato nosso é que estamos com quatro policiais fazendo curso em Curitiba na Escola da Polícia Civil e aguardo a volta deles.

Quando o senhor começou a trabalhar, o crack não era esse tormento que é hoje. O que representa o crack na sociedade hoje?
Quando eu comecei não se falava em crack e sim na maconha, na cocaína. O crack passou a afetar mais a sociedade em meados da década de 1990. Em 1996, quando eu era delegado em Nova Esperança, lembro que fiz a primeira prisão de um indivíduo portando crack. Era 175 gramas e essa pessoa era conhecida como Carlinhos do Crack. Ele foi condenado a sete anos de prisão. O crack é uma droga que traz desalinho às famílias porque ela consome com facilidade o indivíduo. Hoje é a droga que mais nos confrontamos. A maconha é muito pouco. Mas a obrigação da polícia é combater e tirar de circulação.

Qual é a influencia do crack na criminalidade em Cianorte hoje?
Hoje em Cianorte os casos de roubos, furtos e homicídios estão diretamente relacionados com o uso do crack em sua maioria.

Como está a situação da carceragem?
Hoje temos uma cadeia superlotada. Temos capacidade para 44 presos e temos 136. Mas todas as cadeias estão assim e os delegados reclamam. Temos que buscar condições de buscar meios para fazer o trabalho de combate ao crime na sociedade.

Quais seriam as soluções para esse problema?
No caso de Cianorte seria a construção da nossa Delegacia Cidadã. Temos um terreno doado pela prefeitura ao Estado. Essa delegacia não teria cadeia pública. Somente duas celas para presos temporários. Isso seria um quadro muito bom para a Polícia Civil. Ficaríamos livres de cuidar de presos e teríamos todo o nosso efetivo para cuidar do combate ao crime.

Como está a situação dessa Delegacia Cidadã?
Ainda não temos previsão da implantação. Está na esfera administrativa e espero que em breve possamos inaugurar. Mas desejamos uma delegacia nova bem estruturada, dando conforto para a população e que facilite o trabalho da polícia.

Como o senhor avalia o rodízio de delegados nas delegacias do Paraná?
O rodízio é estabelecido pelo estatuto da Polícia Civil. Eu já trabalhei em outras cidades e estou em Cianorte. Estou aqui e tenho que desempenhar meu trabalho para a comunidade. Essa é a minha obrigação de funcionário público que sou e assumi o compromisso de fazer isso. O aspecto positivo de poder ficar mais tempo em uma cidade é poder ter mais contato com a comunidade local e fazer parte dessa comunidade. Morar naquela comunidade para ter compromisso com aquela comunidade. Se o policial sabe que vai sair em seis meses ou em um ano, ele não teria compromisso. Ele pode pensar que estará de passagem e pode deixar a desejar na sua prestação de serviço.

Há cidades que há rivalidade entre a Polícia Civil e a Militar. Como é sua relação com a PM em Cianorte?
O meu relacionamento com a Polícia Militar é ótimo! Tenho precisado deles e eles vêm na delegacia para me auxiliar aqui e nas diligências na cidade. Sempre foram prestativos. E eles também nos convidam para participar de ações que fazem. Então isso é o trabalho em conjunto entre as polícias. É uma somatória positiva para a comunidade.

Isso é uma característica sua? Também aconteceu em outras cidades onde trabalhou?
É uma característica minha. Em Nova Esperança, Maringá e Umuarama a mesma coisa. Sempre tive esse ótimo relacionamento e não posso reclamar da Polícia Militar.

Qual caso marcou sua carreira como delegado?
Em Maringá teve o caso do sequestro da filha do médico Jorge Chamas [em 2002] que exigiu muito da polícia e foi desvendado. Outro caso importante foi o de um médico em Maringá que foi sequestrado e morto em Sertanópolis. Consegui apreender a arma do crime e foi um caso que chamou muito a atenção na época.

O senhor lembra de algum caso curioso que acompanhou?
[rindo] São tantos casos curiosos… geralmente, em delegacia tem casos assim. Eu já passei por tantos. Em Nova Esperança tinha o preso Zé Roberto que tinha o costume de pedir antibiótico. Mas ele queria ser levado para tomar o remédio e não queria tomar na delegacia. E cabe ao policial ser esperto. Pensar por que ele queria sair? Era para pegar o policial desatento. E todas as vezes que o Zé Roberto ia ao médico eu falava para os policiais que acompanhavam: “Toma cuidado com o Zé Roberto… se der oportunidade, você vai voltar sozinho para a delegacia”. E um dia quase que o Zé Roberto realmente se foi… [risos]

Ainda é possível ser um policial humanista encarando tanta violência urbana?
Eu sempre digo que o policial tem a obrigação de combater o crime e tirar de circulação o marginal que cometeu o ilícito. Mas a partir do momento que ele encarcera esse marginal, ele tem a obrigação de cuidar porque é um ser humano que está ali dentro encarcerado. Não importa o crime que ele praticou. É obrigação nossa de cuidar desse indivíduo, desse elemento. É um ser humano que está preso em pagamento pelo que ele fez.

Originalmente publicada na Folha de Cianorte em outubro de 2013.
A coluna Entrevista Especial é publicada aos domingos no jornal.

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