MINHA SANTA IRMÃ BENIGNA

Relembrando escritos prestamos a melhor homenagem na sua partida

OUVINDO HISTÓRIAS DA IRMÃ BENIGNA

A Rainha da Paz é uma entidade de grande importância neste nosso município, desde o primeiro momento que a Irmã Benigna Nazari pisou em nossa terra de areia. Tem mais de vinte anos… Ela chegou aqui cheia de sonhos e não abandonou seus propósitos de trabalhar com as crianças mais vulneráveis da cidade desde os primeiros dias. Perseverante eu diria, por vigor próprio e pelo cumprimento fiel de sua vocação como religiosa.

Em relação aos menores que tempos atrás ficavam soltos pelas ruas da cidade, parados em portas de supermercados, muitas vezes pedintes tem uma linha divisória: do antes e depois da chegada da Irmã Benigna na cidade. É bem verdade, que as organizações oficiais foram se arrumando ao longo do tempo, como o Conselho Tutelar, como o Ministério Público voltando seus objetivos a proteger as crianças e adolescentes de possíveis violências. O serviço prestado por estes órgãos sociais são inegáveis em seus valores, eis que empreendem esforços substanciais para que os incapazes possam ter uma vida digna, seja nas famílias, seja junto à sociedade. Mas, nada se compara ao trabalho voluntário, desprendido desta pequena leoa que chegou aqui e em sua humildade foi capaz de revolucionar o tratamento com as crianças. Fico pensando, que ela chegou aos 77 anos e até quando ela estará entre nós? E sua obra como ficará, ela não é eterna e os princípios implantados na Rainha da Paz nunca poderão morrer e desaparecer sob pena de nossa cidade ter sérias consequências na difícil tarefa de trabalhar com crianças. A Irmã Benigna tem histórias e muitas para contar, pois, vive diariamente com mais de 600 pequenos que correm pelo pátio, que aprendem artes, computação, que tocam, que estudam, que cantam, que rezam e, que sobretudo comem e muito. A entidade está presente em todas as necessidades materiais e espirituais daqueles menores.

E lá vem a notícia de que um garoto subiu na árvore e de repente despencou lá de cima. A Irmã Benigna complacente vai lá atender aquele garoto, e como uma mãe carinhosa e atenta chama a atenção do menino displicente e cobra dele “seus pais não lhe ensinaram a ter limites?” e a resposta do garoto vem pronta: “não vejo meu pai e nem minha mãe… Eles estão presos em Foz do Iguaçu.” A resposta faz a freira chorar e comover-se com a sorte e o destino daquela criança tão mal amada. Depois vem a criança ingênua, com oito anos de idade e durante uma conversa sem compromisso revela: “meu pai fuma maconha, irmã… é uma massinha assim, apertada, e ele fuma,. ele guarda escondido na geladeira, na gaveta do armário, debaixo da cama.” A criança sabe tudo, ela não fala, mas, observa os passos do pai. E revela: “quando fica de noitinha meu pai vai fumar maconha no escuro no meio das árvores.” O espelho da criança está dentro da própria casa. A criança fala com uma ingenuidade que chega a doer na alma, mas, também fala que não vai fumar aquilo porque aprendeu que faz mal para o corpo. Aprendeu com a Irmã Benigna e suas lições intermináveis. Verdade, que nem todas as crianças que estão lá são de lares com problemas, mas são as crianças mais vulneráveis que vão lá para não ficarem sozinhas em casa, para não serem ociosas enquanto pais trabalham, e por inúmeras razões estão lá porque para cada uma, a entidade tem uma importância significativa para elas. E lá está a Irmã Benigna a planejar um encontro com as mães das crianças, no mês de maio, onde as mesmas vão mergulhar na reflexão da difícil tarefa de ser mãe. Que a sociedade abrace este trabalho magnífico que vem sendo feito no silêncio dos dias, dos meses e dos anos por esta pequena vitoriosa, e que abrace com carinho para que não tenha que lamentar “o antes e o depois da Irmã Benigna.”

Izaura Aparecida Tomaroli Varella

Advogada e Professora

Em 16 de abril de 2017.

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UMA PALAVRA PARA A IRMÃ BENIGNA

Há uma pessoa, pequena, inquieta, humilde e dócil que vive em nossa comunidade cianortense. Quase todos a conhecem ou dela já ouviram falar. Silenciosa, sempre com um doce sorriso nos lábios, cobrindo-se do hábito religioso, de cor bege, passa às vezes até despercebida pela sua timidez. Mas às vezes ela fica tão grande, tão gigantesca, por causa das obras que pratica, que esta mulher miúda, meio gordinha, escondida no hábito torna-se grandiosa. Sem chamar a atenção sobre si, consegue no seu recolhimento melhorar a vida de inúmeros adolescentes, que buscam na entidade que dirige uma educação religiosa e moral, direcionada para enfrentar o duro mundo do lado de fora.

Fico imaginando Cianorte sem essa mulher pequena e tão poderosa em suas ações. Onde seriam abrigadas mais de 400 crianças e adolescentes, que para ela se dirigem diariamente, para complementar seus estudos, se, de repente esta mulher faltasse. Alguém já parou para refletir que estes jovens vêm de famílias humildes, oriundos de mães e pais que trabalham fora do lar, para complementar o orçamento doméstico e se não tivessem a opção de passar a outra metade de seu dia na entidade Rainha da Paz, onde estariam todos? Na rua, em sua maioria.

E fico aqui puxando pela memória, alguns atrás. Será que a população já esqueceu quando não se entrava em nenhum supermercado da cidade, sem se abordada e ter que dar alguns trocados para meninos e meninas parados na portas, à espera de alguma condescendência por parte dos clientes? E nos semáforos? Quantas crianças abordavam os carros à espera de alguma migalha… E os carros cercados por “flanelinhas” em busca de minguados trocados?

Tudo isto a comunidade já esqueceu, porque isto não existe mais, desde que aqui chegou esta miúda freirinha, cheia de coragem. Generosamente, ela se dispôs a trabalhar incessantemente por estas crianças. No melhor abraço maternal recolheu estas crianças para dentro de um espaço minúsculo, que cresceu com ela e com ajuda da comunidade. Quem é capaz de recusar um pedido de Irmã Benigna? E assim construiu a Rainha da Paz, sob o manto da Virgem Maria.

Sim, de fato, a memória se perde, pois aquilo que não nos incomoda mais, é fácil de esquecer. Quem teria a coragem de soltar estas 400 criaturinhas, hoje, nas ruas da cidade? O que aconteceria? Sem oportunidade para serem educadas dentro dos melhores padrões morais e religiosos, estaríamos sendo testemunhas de deliquência, contravenções, de pequenos roubos, e como isto incomodaria a sociedade cianortense… É possível, então, imaginar uma Cianorte pacata sem esta formidável mulher? Ah, se um dia ela fosse embora, quem teria a sua força, a sua coragem, o seu carisma, para continuar a sua obra? Teria o poder público capacidade para supri-la? Jamais!

Depois de tudo isto não consigo compreender como pode ainda existir em nossa sociedade pessoas capazes de desmerecer a Irmã Benigna, com comentários recheados de maldade. Mas elas existem e ficam por aí, tais como aves agoureiras, movidas pelo menor e menos digno sentimento humano, que é a inveja. Quem tem ciúme da obra que esta humilde mulher constrói é porque não tem capacidade para sequer construir a soleira de uma porta. Tudo isto faz-me lembrar o Evangelho de Lucas que fala do homem que edificou sua casa sobre as rochas, e mesmo diante da enorme tempestade caindo sobre ela não a fizeram jamais desmoronar.

Assim é a nossa Irmã Benigna. Pequenina, mas constrói sobre a rocha; humilde, mas vence as correntezas; forte, extremamente forte, para manter para sempre os alicerces de sua valorosa obra. Fique com Deus!

Izaura Aparecida Tomaroli Varella

Em 18 de setembro de 1.999

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ONDE ESTÁ A IRMÃ BENIGNA?

Na verdade, eu quero saber como ela está… Notícias tem chegado de que lentamente ela melhora depois de um AVC. Uma pessoa tão ativa e dedicada ao conforto do ser humano, nunca se sentirá bem sabendo que uma perna e um braço não fazem mais os movimentos inteiros e que uma boca santa, que sempre falou só por causas justas, possa estar com alguma disfunção. Foram as consequências do AVC, para o corpo daquela Irmã santa que sempre se entregou totalmente à caridade.

Sem ela, ficamos desnudos, não há mais a referência de que problemas com crianças e adolescentes serão resolvidos com rapidez como ela resolvia. Perdemos o fim absoluto da caridade em Cianorte, eis que tudo que caía nas mãos da Irmã era resolvido de imediato. Se faltavam condições momentâneas para ela solucionar o que tinha diante de si, logo procurava seus amigos, que conquistou ao longo de vinte e cinco anos em Cianorte, que no silêncio, contribuíam sem reclamar e com dedicação e solidariedade.

Bem me lembro desta Irmãzinha humilde, falando baixinho, bem baixinho como era, tímida, respeitosa, quando chegou a Cianorte! Na Praça Osvaldo Cruz havia uma construção antiga que na missão fracassada de ser uma Santa Casa de Misericórdia, acabou servindo e muito, para abrigar idosos dependentes de cuidados diários. E assim se fez. A disposição do Nelson Casotti e de sua esposa, hoje, falecida, acolheram os idosos em estado de vulnerabilidade de nossa Cianorte e devagar foram acomodando naqueles espaços aos cuidados das Irmãs Vicentinas, tendo à frente, em determinado momento da história, é claro, a Irmã Benigna. A garra dessa mulher pequena a fez ir mais além e na fundação da Rainha da Paz, da qual foi idealizadora, abraçou as crianças que antes ficavam sós em casa em função do trabalho necessário dos pais e as colocou no contraturno. Nunca faltou comida, almoço em abundância, cardápio substancioso, com alimentos doados, café da tarde e da manhã, pois não há quem não acredite no resultado do trabalho desta Irmã. Há vinte e cinco atrás encontrávamos crianças pedindo auxílio nas portas dos supermercados e hoje… Nunca mais! Pão sempre é bom comer quentinho e lá foi a nossa Irmã Benigna mobilizar a comunidade para instalar uma padaria no local e as crianças passaram a desfrutar da própria produção da Rainha da Paz, além de servir de ponto de venda. A renda precisava aumentar e nós começamos com ela um trabalho para montar o Bazar Beneficente da Rainha da Paz, na avenida Souza Naves e lá se instalou uma loja de roupas novas e usadas, doadas, cuja venda serve de fonte renda de renda para garantir o conforto de mais de mil crianças aqui e em Vidigal. Nem um empresário faria tanto… A solidariedade falou mais alto, a comunidade se comoveu, o poder público garantiu recursos e hoje é uma entidades mais bem organizadas de Cianorte: a casa da Irmã Benigna.

Suponho que dificilmente, Irmã Benigna retome seu trabalho, pois um AVC deixa sequelas e impõe limites. Onde alguém com o mesmo olhar de caridade e de entrega será encontrado para continuar este trabalho? Embora a Rainha da Paz seja uma entidade organizada, com bons funcionários, a Rainha da Paz jamais será a mesma sem a presença acolhedora desta irmãzinha pequena e tão grande de alma. Como gostaria de vê-la novamente, por entre aqueles corredores, com seu hábito azul e branco estimulando este e aquele e dando conta daquela grande empresa santa de tratar com gente! E aqui fico rezando pela sua cura e pela sua volta!

Izaura Varella

Em 23 de agosto de 2019.

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Porém, não poderíamos agora em abril de 2.020, não considerar a pior notícia que nos chegou. Depois 46 dias na UTI, no Hospital Nossa Senhora das Graças em Curitiba ERMIDA NAZARI, nossa amada e saudosa Irmã Benigna Nazari, foi convidada pelo Senhor de todas as vidas, para deixar nossa terra, definitivamente. E nos deixou a todos Le dando o mais doloroso dos adeuses. Apenas em corpo material, pois nas nossas lembranças ela jamais morrerá!

Como vou esquecer que ao visitá-la na UTI em Curitiba, ela me reconheceu e deixou escapulir uma lágrima de seus olhos?

Izaura Varella

Abril de 2.020

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