DOMINGO DE CARNAVAL

A cidade está vazia, completamente a sós com ela mesma. As ruas estão disponíveis, sem preocupação de cuidar de quem está a nossa frente e sem cuidados com as motocicletas que atravessam do lado esquerdo, do lado direito, saindo do bueiro; quando se dá conta elas estão lá, diante de nós, ariscas feito um pássaro. É bom sentir a solidão das ruas. Onde estão todos? Onde foi parar aquele movimento incessante de ir e vir, nas portas de banco, lojas, semáforos, cruzamentos?

O Carnaval é a festa que devolve para nós, não foliões, o direito de sentir a cidade livre, calma e sem barulho. Com as ruas tão calmas, sem pedestres, o que adianta passear pelo silêncio? Neste mundo moderno o que nos atrai mesmo são as novidades, o colorido, o movimento, o barulho incessante. Andar pelas ruas abandonadas, sem ninguém, remete-nos aos velhos tempos da fundação da cidade. Lá também não havia quase ninguém nas avenidas e aqueles que casualmente se encontravam com a gente, abriam um enorme sorriso de cumprimento, porque todos eram conhecidos uns dos outros.

Vamos deixar o movimento do samba para as grandes cidades, e permitir que nosso povo sinta a solidão de estar sozinho, ouvindo o trinar das aves que ainda restam no Bosque da cidade. Andar pelos parques, caminhando pelo Cinturão Verde que rodeia a cidade, sentindo o farfalhar das folhas e nada mais, estimula nossa interioridade e é o momento aprazível de estar sozinho consigo mesmo. O barulho atrapalha este entrar em si, porque quando estamos dentro de nós mesmos, temos a enorme oportunidade de nos redimir de nossos erros. Alguns não, alguns só pensam em vingança para aplacar o ódio interior, mas a maioria aproveita o silêncio dos monges para conversar com seus próprios botões. E nem interrompa quem está neste estado de absorção de si mesmo; seria uma tremenda e imperdoável interferência no direito do outro de estar com si próprio perdido em suas reflexões.

Você já tentou falar com uma criança que está completamente entregue a seu brinquedo? Ela não nos ouve, é necessário falar duas, três vezes, para tomar-lhe a atenção. É este refletir profundo que podemos aproveitar neste Carnaval. Para quem não freqüenta o barulho, é o momento certo de penetrar no mais profundo âmago de si mesmo. Nestes momentos somos capazes de descarregar o fardo pesado e exaustivo de nossos remorsos e ir em busca da remissão. Nossas escolhas inadequadas do dia a dia, eis que somos humanos e erramos constantemente, vem à tona nestes dias de silêncio; nossa reflexão nos conduz à sabedoria e à libertação. Libertar-se é reconhecer que somos frágeis, que erramos, que não somos onipotentes. O silêncio destes dias do Carnaval nos conduz ao cair em si mesmo e nos dá a possibilidade de voltar à nossa inocência natural, depois de tantos caminhos errados percorridos ao longo da vida.

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