DEPOIS DO CARNAVAL

“Nota de Falecimento: Recebi, hoje, domingo de Carnaval, uma triste notícia. A Camélia acaba de falecer. Uns dizem que ela caiu do galho, outros dizem que foi o Covid 19. Ela chegou a ser levada para o hospital e transferida para o respirador, mas deu dois suspiros e depois morreu. Recebi esta triste notícia da jardineira que estava inconsolável. Foi decretado luto oficial de cinco dias em todo o território nacional. Meus sentimentos aos palhaços, pierrôs e colombinas. O velório será no Jardim da Saudade, só poderá participar do cortejo quem estiver portando máscara negra.”

Um texto singelo, sem grandes pretensões poéticas, mas que revela os acontecimentos mundiais nunca antes vistos. Um bichinho invisível consegue se disseminar entre a população e continua causando um estrago inimaginável. Fecha a cidade, fecha o comércio, obriga-se uso de máscaras, proíbe-se a circulação de pessoas, álcool, higiene pessoal e nada do vírus desaparecer. Este bichinho invisível acabou com o Carnaval, a festa mais popular do Brasil.

E aqui fico me lembrando dos carnavais passados em Cianorte, lá pelas décadas de 70 e 80 e me lembro do povo na rua comemorando, quando meu pai dizia que era a festa do Diabo. Eu nunca vi o Diabo nestas festas, mas vi fantasias lindas idealizadas pela Vera Helena Perdigão de Carvalho, esposa do falecido médico Dr. José Rubens de Carvalho. Fantasias maravilhosas que transformavam os casais carnavalescos da época em Pierrôs e Colombinas, Rainhas e Reis espelhados com estandartes imensos que mal cabiam dentro do salão do Cianorte Clube. Vi estes homens e mulheres festeiros dançarem a noite toda sob o ritmo do samba, felizes, aproveitando toda a alegria e a juventude que a vida lhes dava, participando, intensamente, do Bloco dos Coroas. E ir embora somente no amanhecer e continuar sambando na casa de algum carnavalesco até o sol despontar esplendoroso nos céus de Cianorte. Um grupo de jovens que formava o Bloco Animação, sob o comando do saudoso engenheiro agrônomo Hélio Rodrigues Gimaiel entrava pela noite adentro, com seus instrumentos de percussão, e a vida ficava esquecida lá atrás. Embrenhar-se no Carnaval afora tinha tão somente um único objetivo: ser feliz. Com seus triângulos, bumbos, pandeiros e demais, inflamavam as noites saudosas dos Carnavais de Cianorte. E lá vinha o Bloco Tanajura, concorrente feroz do Bloco dos Coroas, que mandava espião na madrugada para descobrir o tema da fantasia adversária. E os Coroas ganhavam o primeiro lugar na Categoria Luxo, e os Tanajuras ganhavam o primeiro lugar na Categoria Originalidade. Era uma briga competitiva e saudável, que deixou belas recordações. Hoje o Carnaval morreu em Cianorte. Se já não existia mais, muito menos agora com tantas proibições e cuidados necessários. Quem sabe um dia, alguém renove esta tradição.

Os carnavalescos destes tempos de outrora: Hélio Rodrigues Gimaiel, Dr. Aírton Theodorico Brun, Dr. Jair Ramos Braga, Dr. Lourival Mendes de Souza, Abrão Nacle, Dr. José Rubens de Carvalho, Dr. Nelson Martins Schiavinatto, Dr. José Roberto Furquim de Castro; todos já se foram para o outro lado da vida…

Saudades imensas da camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu!

Izaura Varella

Cidadã cianortense que gosta de contar histórias

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