Cuba, Venezuela e outras coisinhas mais…


Não posso deixar de falar do que VI E VIVI: Estive em Cuba, por 40 dias. Fomos atraídos por um medicamento desenvolvido por médicos cubanos que poderiam combater o vitiligo, umas manchas brancas que o Lino tinha numa das mãos. Um líquido composto de vitamina C, que combinado com ácido fólico e vitamina B12, passava-se sobre a mancha e que ajudava na fabricação da melanina. Diziam que era uma novidade e só mais tarde vim saber que se tratava de um procedimento tradicional. Mas, nós queríamos conhecer a comunista Cuba de Fidel Castro. Na hora de embarcar já percebemos algo diferente. Na fila para retirar o tíquete das passagens aéreas, as aeromoças cubanas carregavam forno de micro ondas, ventiladores, liquidificadores e muitos outros eletro domésticos. Quando embarcamos num velho avião soviético embarcaram também um cachorro com seu dono e que se sentou atrás de nós. Quando chegamos no aeroporto de Havana fomos revistados no corpo e na alma. Reviraram tudo, até que apresentamos o nosso visto concedido para tratamento de saúde e fomos para o lugar destinado. Fomos para uma colônia a beira-mar, um mar azul de doer os olhos, um clima maravilhoso e uma cama de casal muito ruim. Quando saímos pela colônia vimos construções lindas e enormes ao estilo inglês e só aí fomos nos dar conta que o governo de Fidel ao implantar o comunismo na ilha, havia desapropriado todas as propriedades da ilha. Os ingleses e outros europeus vinham passar o verão na ilha e logo compravam suas propriedades. Com a expropriação de todos os imóveis ninguém ficou dono de nada, nem da sua própria religião, as igrejas foram fechadas e todos os cubanos passaram a fazer parte de uma lista para receber a cota semanal de comida a que tinham direito. Quem nos conduziu nestes 40 dias foi uma cubana simpática que a cada dez minutos na frente dos outros falava das belezas da ilha e dizia em seguida “Vila La Revolucion”, para depois estando já confiando em nosso conhecimento, falava com gestos que nada ali era bom. Deus virou um mito e encontramos muitos, mas muito jovens mesmo, trabalhando na colônia, mas dizendo-se ateus. Surpreendente tudo aquilo. Fui educada num colégio Católico de irmãs salesianas e me lembro que as freiras falavam do comunismo na Rússia e que poderia vir para o Brasil. Fui fazendo perguntas para este e aquele e fui descobrimento o sistema punitivo e silencioso da população cubana, subordinada completamente. Chegou o dia de irmos ao médico. Não havia táxis, os carros velhos dos anos 50 ainda circulavam pelas ruas da cidade a serviço do governo, e uma van veio nos buscar. O consultório médico era franciscano. Apenas uma mesa pequena de madeira sem pintura e uma cadeira para o paciente e eu fiquei em pé. Como voltamos várias vezes para fazer o tratamento, acabamos tendo um relacionamento amigo com o médico que nos contou que ganhava por mês 8 dólares. Penalizada com tanta miséria procuramos uma loja do governo, muito pequena que tinha na única prateleira escovas de dentes, pastas e sabonetes. Fui pedindo isto e aquilo e no final da compra deu 51 dólares. O Lino deu uma nota de 100 dólares para pagar e a pequena loja virou no avesso. Foi chegando o chefe, o chefe do chefe, o chefe do chefe do chefe, perguntando porque estávamos com aquele dinheiro, para onde ia, para quem seria, se íamos levar na viagem… enfim, explicamos que estávamos em tratamento de saúde e deram o troco. Saímos daí e fomos conhecer melhor a colônia. No pequeno porto estavam ancorados uma dezena de barcos ingleses (também desapropriados). No centro de Havana fomos conhecer o Palácio do Governo, uma enorme escadaria para subir e mulheres cubanas com suas crianças pequenas, faziam carinha de choro e pediam com gestos nossas moedas. Porque em Cuba não se fala, só pode pensar sem que ninguém descubra o seu próprio pensamento à noite. Eu era leitora dos livros de Ernest Hemingway que viveu na ilha, fomos tomar uns “mojitos” num bar que Hemingway costumava frequentar antes do tempo da ditadura de Fidel. Atravessamos uma praça e silenciosamente, as mulheres se ofereciam para o Lino, quando não estávamos juntos e até homens me abordaram também. Fomos num shoping e só estrangeiros podiam comprar nas raras lojas do governo, mas a fila do algodão era livre e as crianças cubanas estavam lá esperando a sua vez. Muita disciplina, muita ordem, por medo evidente, povo carinhoso e receptivo, cidade suja velha e feia, construções do século 18 caindo aos pedaços, todos preocupados com a delação que era comum. Minha filha Ana Luiza, médica, foi cicerone de um médico cubano, que era Ministro da Saúde de Cuba e que havia ido fazer uma palestra em Curitiba. Ela o acompanhou em todos os lugares em Curitiba e o levou de volta ao aeroporto. Ela me aconselhou que ao ir para Cuba que levasse umas camisas para ele. E assim fizemos e fomos em busca da casa do Ministro, uma casa simples, com um carro velho, vazando óleo pela varanda. Ele não estava, mas, sua filha médica veio nos atender com sua mãe. Gentil, nos deu uma cadeira para sentar na varanda e ficaram em silêncio. Contamos porque viemos, demos o presente, agradeceram e mais nada, nem uma palavra… o medo pairava e se fôssemos algum espião e em Cuba? Tudo funcionava à base da delação! Esta é a Cuba que conheci, verdadeira, com apenas um jornal do governo circulando, com notícias endereçadas e ao ligar os raros aparelhos de televisão éramos obrigados a ouvir Fidel fazendo discursos de hora e meia. Eu vi, ninguém me contou… Como professora de Geografia e História que fui nada me fascinava tanto do que viajar. Passados uns anos fomos para a Venezuela, quando o país não tinha a ditadura de Hugo Chaves. O Lino foi fazer parte do Conselho de Legislação do Distrito Rotário 4630 e fomos juntos. O aeroporto fica bem longe de Caracas e quando se vai para a cidade o caminho passa por um bairro que cresceu num morro, todas com as casillas amarillas”. A cidade nos deslumbrou praças lindas, floridas, ruas largas, muitas lojas com a maior variedade de objetos, roupas, enfim um comércio exuberante. Voltamos depois de alguns anos, quando Hugo Chaves era o Ditador, já no fim de seu tempo. Tropas nas ruas, Caracas suja, velha, decaída e todas as propriedades desapropriadas. Povo faminto, silencioso, com medo de delação. Meu filho quando voa para Caracas não sai do hotel do aeroporto por medo da violência! O médico, amigo meu que conversávamos pelo face desapareceu. Decadência total. Isto é o comunismo! Só se beneficia dele aqueles que estão no poder.

Demorei para fazer este desabafo, mas não aumentei sequer uma vírgula do que conhecei e vivi pessoalmente. Falei e disse!

Izaura Varella

Cidadã brasileira

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