Vicente Machado, protagonista de um dos períodos mais turbulentos da história do Paraná


Personagem mais controverso dos primeiros anos da República no Paraná, Vicente Machado da Silva Lima (1860-1907), ou apenas Vicente Machado, como ficou para a história, despertou fortes sentimentos entre seus contemporâneos. Admirado e respeitado por correligionários, temido e odiado pelos adversários, foi um dos primeiros representantes da elite local a evocar a ideia de um Paraná grande que precisava se impor no contexto da nascente federação brasileira – mas também ficou para a posteridade como suspeito de envolvimento na morte do Barão do Serro Azul.

Abolicionista e republicano – não foi um pioneiro da causa republicana, mas nem tampouco um convertido de última hora –, Vicente Machado combinou estes predicados progressistas com a visão social conservadora típica de seu tempo e os métodos políticos autoritários característicos do positivismo do teórico francês Augusto Comte, que inspirou parte dos republicanos brasileiros.

Vicente Machado nasceu em Castro, filho de uma família tradicional da elite campeira dos Campos Gerais, descendente de Baltazar Carrasco dos Reis, um dos fundadores de Curitiba. Fez seus estudos iniciais em Castro e na capital e em 1876 foi para a Academia de Direito de São Paulo – para onde a aristocracia paranaense mandava seus filhos –, na qual se graduou em 1881, aos 21 anos.

Na Faculdade, conviveu com nomes que fariam história nos primeiros anos da República, como o gaúcho Júlio de Castilhos (1860-1903), cuja trajetória na vida pública e pessoal teria uma inusitada semelhança com a de Vicente Machado. Trouxe na bagagem a fama de leitor incansável e ideias ligadas ao Iluminismo.

Recém-formado, foi nomeado promotor público e em 1883 o chefe do Partido Liberal na província, Jesuíno Marcondes, introduziu-o na política, nomeando-o secretário de governo. Afastou-se do serviço público em 1885 para abrir um escritório de advocacia em Ponta Grossa, onde se estabeleceu politicamente, elegendo-se deputado provincial no ano seguinte pelo Partido Liberal.

Deputado, Machado defendeu os interesses da elite agrária, como na ocasião em que atacou o projeto de lei do deputado Rocha Pombo que criava um imposto territorial sobre as propriedades agrícolas para que os fazendeiros dessem uma contrapartida aos investimentos públicos feitos em infraestrutura que beneficiavam as suas fazendas. O projeto foi rejeitado.

Por outro lado, Vicente Machado defendeu, em 1887, projeto de lei que criava uma taxa anual de 16 mil réis por escravo, alegando que o imposto contribuiria para apressar a abolição da escravidão.

Em novembro de 1888, surpreendeu a todos ao anunciar sua conversão à causa republicana. Alegou que o Brasil se via entre duas alternativas: a aspiração republicana, “salvação do País”, ou o terceiro reinado, que significaria “o aviltamento da pátria”. Por isso, se desligava do Partido Liberal para se somar aos republicanos como seu primeiro deputado no Paraná.

Ele se tornou o principal redator de A República, órgão do Partido Republicano na província, fundado em 1885, onde passou a escrever artigos sobre os mais diversos temas de interesse nacional e da província. E rapidamente assumiu a liderança do próprio partido, embora fosse visto com alguma desconfiança pelos republicanos mais antigos.

Um ano mais tarde, após a proclamação da República, Vicente Machado, com apenas 29 anos, se via entre as lideranças de maior relevo na ex-província e agora Estado do Paraná.  A redação de A República – no comecinho da agora denominada rua XV de Novembro – era onde mais gostava de ficar. Até mesmo as reuniões da executiva estadual do Partido Republicano eram feitas ali. A República se tornara não apenas a trincheira impressa de suas ideias, mas também arma de ataque aos adversários e, sobretudo, instrumento de propaganda do novo regime.

Mas o jogo político logo se embaralhou de novo. Monarquistas convictos até o dia 15 de novembro, liberais e conservadores anunciaram sua imediata e incondicional adesão ao novo regime, convertendo-se em neorrepublicanos que, em pouco tempo, ultrapassaram os republicanos de primeira hora na confiança que estes inspiravam no marechal Deodoro da Fonseca, líder absoluto do novo governo.

Depois de muitas reviravoltas e uma frustrada tentativa de conciliação entre os dois grupos dominantes no estado, Generoso Marques (1844-1928), ex-chefe do Partido Liberal, foi nomeado governador em junho de 1891 pelo primeiro congresso legislativo estadual eleito pelo voto popular na República – e que redigiu a primeira Constituição Estadual republicana. Mas Generoso ficou no cargo apenas seis meses. Foi deposto no final do ano, logo depois do golpe do general Floriano Peixoto que afastou Deodoro.

Vicente Machado sabia que estava chegando sua hora. A junta militar de governo convocou novas eleições estaduais e Machado aceitou ficar como vice-governador na chapa de Francisco Xavier da Silva, eleita sem adversários e empossada em fevereiro de 1892.

Um ano depois, no período histórico mais conturbado já vivido pelos paranaenses, Xavier se licenciou do cargo para tratar da saúde e Vicente Machado assumiu o governo, do qual teve de se afastar às pressas, em janeiro de 1894, quando os maragatos de Gumercindo Saraiva tomaram Curitiba e Paranaguá e iniciaram o Cerco da Lapa, nos sangrentos episódios da Revolução Federalista no Paraná.

Foi acusado de fujão. Mas uma análise criteriosa da situação indica que, se ficasse, ou faria um acordo com os insurgentes ou seria degolado. Não havia forças militares para opor resistência em Curitiba.

Maior empresário da região, Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, à frente de uma comissão de comerciantes de Curitiba, fez um acordo com as forças invasoras, pagando-lhes determinada soma para evitar saques e assassinatos. Ainda assim houve abusos, mas o suborno evitou um massacre, segundo analisam estudiosos do episódio.

Após a retirada dos maragatos e o restabelecimento do poder federal, o Barão foi preso, suspeito de colaborar com os revoltosos. Em 20 de maio, foi colocado num trem em direção a Paranaguá, onde embarcaria num paquete (navio mercante a vapor) para o Rio de Janeiro, a fim de ser julgado.

Mas ao meio da viagem ele e outros cinco acusados foram removidos do comboio e sumariamente fuzilados às margens do km 65 da ferrovia Curitiba – Paranaguá, na Serra do Mar.

A viúva do Barão, Maria José Pereira Correia, acreditava que Vicente Machado fora o mandante da execução. Até então, Machado e o Barão tinham sido parceiros em várias articulações políticas.

Numa recepção ao senador Ubaldino Ferreira do Amaral, algum tempo antes disso, Machado ergueu um brinde ao Barão, que via no jovem uma estrela ascendente digna de seu apoio.

Maria José enviou uma carta ao senador José da Costa Azevedo, o Barão de Ladário, expondo as suas convicções. Achava que Vicente Machado voltara a Curitiba ressentido, com profundo ódio pela humilhação a que fora submetido na fuga da cidade. Por razões só suas, dirigiu suas mágoas ao Barão, mandando matá-lo. A carta da baronesa foi lida no Senado com estrondosa repercussão.

Já como senador, Vicente Machado se defendeu das acusações, em várias oportunidades, na tribuna do Senado, onde o assunto foi relembrado diversas vezes – supostamente o Barão de Ladário aceitou suas alegações.

O Barão do Serro Azul ficou por vários anos no limbo institucional, mas a partir dos anos 1940 começou a sua reabilitação política. Ele foi tema de livros biográficos – um deles virou filme de sucesso comercial – elogiosos, e hoje é reconhecido como uma espécie de patrono dos empresários paranaenses. Em 2008, seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, por sugestão do ex-senador Osmar Dias.

Os contemporâneos de Vicente Machado que se referiram ao tema, anos mais tarde, o eximiram de responsabilidade na execução do barão. De fato, não há provas que o associem ao episódio.

Parte dos historiadores atribui o fuzilamento ao general Ewerton de Quadros, homem de confiança do marechal Floriano, que assumiu o comando militar do Estado logo depois da retirada dos maragatos; outros acreditam que a ordem do assassinato foi dada por oficiais de menor patente.

Vicente Machado exerceu seguidos mandatos de deputado e senador, tendo sido presidente da Assembleia Legislativa no biênio 1902/1903, e voltou a assumir o Governo do Estado em fevereiro de 1904. O mandato foi interrompido em 3 de março de 1907, um domingo, quando morreu vítima de um câncer de garganta, com o qual havia lutado por um ano, inclusive consultando médicos na Europa.

Aos 46 anos, estava no auge de seu poder político. Foi protagonista central – para o bem e para o mal – no período histórico mais turbulento do Paraná. Um tempo de guerra civil, revoltas, golpes e execuções sumárias. Mas nem por isso mereceu as atenções de uma biografia. Passado mais de um século, Vicente Machado continua no limbo da história.

Fonte: Assessoria de Imprensa da Assembleia Legislativa do Paraná

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