UMA CIDADE EM SILÊNCIO

Fazia algum tempo que não via Cianorte tão calma e tão sem movimento. Onde foi parar sua frota de veículos, onde foi parar seu povo, onde estão as motocicletas? Até as bicicletas sumiram de repente. As ruas estão calmas, tranqüilas. Acreditem: encontrei um lugar livre para estacionar meu carro bem em frente à Loja Brasileira e nem era vaga de idoso ou deficiente. Dei mais uma volta e achei outra vaga. Na Avenida Paraná, em pleno dia havia várias vagas chamando meu carro para estacionar. Então, esnobei. Escolhi a vaga que eu queria, do jeito que eu queria e onde eu queria. Bem feita a minha vingança, mas tive que andar muito depois para ir na loja que buscava uns novelos de linha. Não tem importância, porque fui dona, pro breves instantes da minha decisão. Não tive que ficar aborrecida, girando de rua em rua para estacionar meu carro e depois me obrigar a colocá-lo num estacionamento. Esqueci que a minha doce, querida Cianorte havia se tornado uma cidade grande, com todas as pressões que só um centro maior é capaz de fazer sobre seus habitantes.

Aí me veio à lembrança a tranqüila cidade que nascia do meio da mata e com suas avenidas cheias de areia. Não se podia andar de sapato aberto que a qualquer momento era obrigada a parar para tirar os minúsculos grãos de areia do sapato. Apenas uma avenida com algumas casas, aliás, uma cruzando a outra: a Avenida Goiás se enfiava para o corte da Avenida Lovat, aliás, Avenida Souza Naves e a cidade acabava por aí. Um que outro armazém de madeira. Bem no centro o velho Hotel Cianorte abrigava seus primeiros visitantes. Na Praça 26 de Julho, antiga e primeira Rodoviária de Cianorte, os ônibus da Viação Garcia vinham chegando apinhados de gente curiosa, para saber como era mesmo esta cidade que a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná desbravava. Foram ficando, comprando seus lotes, construindo suas casas de madeira, para abrigar suas famílias. E foram ficando por aqui

Aos domingos ia colher jabuticabas selvagens na mata que circundava a cidade. Embrenhava por dentre a mata lá pela região do Martelli e depois por onde está hoje a ABB. Os pés de jabuticabas do mato estavam carregadinhos de frutas e as disputávamos com os passarinhos. Vínhamos de sacola cheia adoçando a vida livre, liberta, sem medo e sem temor de nada. Ia com meus irmãos e com meu irmão de criação, o Francisco ou Chico como a minha mãe o chamava. Era um negro forte e alto, que minha mãe o encontrou abandonado, ainda pequeno, dormindo num dos caixotes das Casas Pernambucanas, o levou para casa e arrumou um quarto para ele e mais tarde ele foi o primeiro massagista do nosso time de futebol, o antigo C.A.F.E., hoje Leão do Vale. Depois de algum tempo ele foi contratado como massagista de um time de Blumenau e o encontraram morto em seu quarto. Minha mãe chorou muito a morte de seu filho de criação, amado por nós e conviva bem com todos. Fomos lá e ajudamos enterrá-lo.

Lá se vão as lembranças pelas ruas de Cianorte, sem movimento e com a mesma liberdade de antigamente. Doces recordações que se perderam no tempo e não voltam mais, a não ser para assustar a gente de vez quando, avisando que o tempo passou. Inexorável o tempo, além de deixar lembranças, deixa também sulcos e marcas no coração da gente.

Um dia resolvi tornar perenes estas lembranças e com algumas professoras escrevemos a História da Cidade. Mas faz tempo, mais de 15 anos e a história agora não está mais completa. História da qual sou testemunha viva. Vi, ouvi, senti, vivi a cidade durante todos estes anos e há coisas que não se pode contar. Vão comigo para a Avenida Rondônia,quando chegar a hora, pois a história de uma cidade também é capaz de escandalizar seus habitantes. E deixa prá lá…

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