Somos Uma Árvore

Numa noite quente, nua do silêncio absoluto dos ruídos diários, nem o farfalhar das folhas das árvores ao redor, nem o apito do guarda, nem o tic-tac do relógio, nem o ruído de um carro passando, na noite silenciosa, onde se baixa a guarda de todas opiniões que se tem pela vida, aconteceu-lhe sentir a consolação de envelhecer.

Sem sofrimento, é claro, e sozinho, amarrado com ele mesmo, com a única companhia que lhe servia, isto é, com ele próprio. Olhando-se parecia uma frondosa árvore, altaneira, levando os galhos verdes para o mais alto do céu, enchendo a rua de frutos saborosos, generosa. E na solidão da noite percebe-se que o tronco encarquilhado desta árvore cheia de ramos, há muitos nós e existem rugas, meio embalsamadas pelo tempo, em cada galho que se vê. Mas, apesar das fissuras do tronco enrugado da velha árvore, a liberdade fica acima de todas as limitações que empobrecem a vida e faz-se sentir culpado. Saindo-se de si próprio, abandonando o velho invólucro que se tornava semelhante a todos, conseguiu estabelecer a diferença entre viver e envelhecer. Abandonou-se o enrugamento do velho tronco e passou-se a se ver cheio de juventude, Esta juventude não era feita de entusiasmo, nem de desejos, nem de sonhos, mas de uma inacreditável serenidade. O invólucro velho e devassado pelas dores do tempo estava aberto, cheio de juventude e de vigor, e de coragem, diante dos tumultos do viver. Seduzido pela imagem alegre que se vê à frente, o envelhecer nada significa quando se foi tão útil. Útil para quem? Para o próximo, ora! Se na etapa do envelhecimento, ao se olhar no espelho e não enxergar uma pessoa traçando planos longínquos no tempo, morre-se logo, de tristeza, de pobreza de espírito, de desistência da vida. Se o coração se divide com o outro se ele se dilata ao olhar o próximo há a expansão do dom concedido por Deus. Descobre-se, de repente, que o fardo de lutas, de miséria, de condenação se acabam e não ultrapassam o limite das rugas que se estampa no corpo.

O envelhecimento não torna o ser humano refém, mas devolve a significação da vida de quem a perdeu sem pensar no outro. As rugas e os nós da casca da árvore encarquilhada não são limites para o nunca mais. Para que servirá o homem que não se encontra no outro e não reconhece suas próprias semelhanças e não se comove diante das diferenças? Homem inútil, egoísta, e de repente se percebe que a passagem é tão rápida, tão ligeira… Olha-se para trás e se dá conta de que quase nada se construiu. Que falta muito para completar a engenharia do saber e do doar-se. A velha árvore não ofereceu sombra, não alimentou o pássaro, não floresceu! O desfecho final concluiu que nada se deu, que nada se perdoou, não se tomou posse do território e não se subiu à montanha.

Izaura Varella

Em 22 de abril de 2018

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