SERVIR

Quando chegamos a compreender o sentido profundo do sacrifício por alguém é que conseguimos compreender que a solidariedade enriquece. Ela não amputa, mas dilata o seu potencial de servir. Servir é uma máxima rotária, mas, sobretudo, uma máxima cristã. De que vale nossa vida se nos prendemos aos nossos próprios desejos, aos nossos próprios sonhos, querer realizações pessoais, se não sabemos olhar o outro com olhos de piedade e tolerância, quando o semelhante tem necessidades?

Não somos uma ilha, isolada; necessitamos do outro para que nos coloquemos no sentido fraterno de dividir e não, tão somente, ficarmos no sentido das coisas. De que valeria um bem precioso material se não vou levá-lo comigo quando a data final for determinada. O diamante lapidado só valeria pela forma, não pelo sentido da vida. Mais rico é aquele que se esfola o ano inteiro em busca do diamante e no final do garimpo o divide com os demais. Vale o sentido figurado das coisas e não nosso egoísmo em reter para nós aquilo que nunca será nosso eternamente.

Passamos como todos os mortais, mas, se em vida não chegarmos no alto da montanha, vencendo as pedras pontiagudas da caminhada, sacrificando os músculos e raspando nas pedras a pele amortecida, de nada valerá a chegada na montanha. Não acumulamos provisões e quando estivermos no pico da montanha mais alta nada haverá em nosso embornal; vazio estará; e não há o que dividir e com quem dividir. A divisão transgride todas as regras matemáticas quando se fala de solidariedade: divide-se e no momento que se divide, as provisões se somam de tal forma, exuberantes e generosas, que a regra de diminuir desaparece. É a regra de quem é generoso, é a regra de quem, com a divisão consegue multiplicar.

Saint Exupèry costumava dizer: “é por isso que qualifico de fúteis os que pensam só em dinheiro e classifico de razoável as bailarinas. Não que eu despreze a obra dos financeiros; mas o que eu percebo é a arrogância, a segurança e a satisfação de si próprios que eles demonstram diante da riqueza acumulada. Julgam-se o termo e o fim da essência, quando não passam de criados. É aí que os financeiros passam a servir as bailarinas…”

Quero excluir aqui os movimentos que tem cara de solidariedade, entretanto, são captadores de votos e de recrutamento de dependentes políticos, aproveitando-se da ignorância de seus seguidores. Falo aqui dos grupos de oração que redimem as pessoas que estão em aflição e acabam buscando o suicídio, falo da religiosa que investe seu tempo e até suas pequenas economias pessoais, que não pensa em si, em dar apoio espiritual, matando a fome do corpo e da alma do desamparado, falo aqui daquele cristão que foi no acampamento e saiu vendo o mais pobre dos homens como seu semelhante. Falo aqui daqueles que exercitaram o ato do perdão, diante daquele que o feriu. Não podemos se quedar na espera do que diz a novela: “tudo o que você faz, um dia volta para você.

Quem é solidário não espera retorno. Simplesmente se despoja, fica na nudez e aumenta a sua possibilidade de somar.

Izaura Aparecida Tomaroli Varella

Cianorte, em 6 de maio de 2018.

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