POR ONDE ANDAM AS BORBOLETAS AZUIS?

Dedicado ao Adão Pedro de Oliveira que ainda sonha com as borboletas azuis

Quando minha cidade nasceu, com tantas florestas em volta, as borboletas azuis encantavam nossos quintais. Bastava um pouco de água e alguns galhos verdes perfumados e algum pólen de alguma flor sem importância, que elas vinham aos montes sobrevoando nossas cabeças, tão frágeis, vôos curtos, inseguras, sem se mover para uma direção determinada… Elas eram azuis e eram tantas, que as suas presenças além de falar à alma, embelezavam nossos caminhos, nossas ruas, nossas avenidas ainda cobertas pelos troncos de perobas mortas. E o tempo se foi e foram desaparecendo, como os sonhos se vão, como a vida se vai, como os filhos se vão; tal como a vida, passou rapidamente. Já não se pode apreciá-las quando se quer, bastam as lembranças de tê-las visto rodeando nossa juventude, basta a cor azul vibrante de suas asas atingirem nossas lembranças. Elas se foram, como tudo se vai. As borboletas azuis são as mais belas do mundo, do gênero Morpho, e são típicas das florestas tropicais da América do Sul. Algumas, que vivem nas matas, são grandes, com asas pesadas, de escamas azuis irisadas, são verdadeiras obras primas da natureza.

Os Incas e os Astecas viveram por estas florestas tropicais do norte da América do Sul, que dantes ocupavam regiões enormes, intocadas pelo homem. Nesta imensidão verde, sem dono, estes ancestrais acreditavam que as florestas eram as antecâmaras celestes, de onde, milagrosamente, vinham as borboletas azuis trazerem os seus encantos. Eram adoradas, religiosamente, por eles. A forma de se tornarem na cor azul, as borboletas, deixavam estes homens antigos diante de mistérios, pois, elas nasciam pardas ou ocres, mas, a luz ao penetrar nos alvéolos cheios de ar que ficam nas escamas das asas destas borboletas, conseguia decompor o espectro luminoso, dando tonalidades azul turquesa, acetinadas e metálicas. Para os Incas quem poderia explicar este milagre da transformação da cor? Como podem ser tão azuis, as borboletas azuis? Que milagre é este que muda a sua cor e eleva a alma do ser humano em busca de uma crença e que venha trazer tanto fascínio e acalmar o homem?

As borboletas azuis ficaram no tempo e que nossas crianças de hoje não mais verão, porém, se eternizaram na memória dos mais velhos. A ocupação humana fragilizou o ciclo das borboletas, assim como a falta de carinho fragiliza uma convivência de amor. A ausência das borboletas azuis deixou um espaço não preenchido, eis que um pardal sem cor, sobrevoando a nossa cabeça, foi o que nos restou da natureza, ele não ilumina, não diz nada, é tão somente um passarinho que come nossas jabuticabas. As borboletas azuis jazem agora com os sonhos não realizados, com a vontade de ser grande e que não deu certo, com o desejo de ser amado por todos, que é um sonho impossível, simplesmente, foram embora e não se deram ao trabalho de dizer adeus. Mas também nunca me disseram que seriam perpétuas. Saudades das borboletas azuis.

Izaura Varella

Cianorte, 24 de novembro de 2018.

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