PODE SER A ÚLTIMA VEZ

Pode ser a última vez que a vejo entre as grades, presa, com as mãos trêmulas, segurando-se nas paredes da cela, clamando por socorro. Sozinha, não consegue abandonar o vício do álcool e um litro de álcool é pouco por dia. Inchada as mãos, inchado o corpo, os olhos, o que resta desta mulher que se entregou ao vício desde muito jovem? Colecionou insucessos amorosos, foi criada nas ruas, sem bons modelos para se espelhar, acabou espelhando o modelo cruel da vida: viver sozinha, ora acompanhada por um bêbado qualquer, comendo migalhas, deitada no coreto da Praça João XXIII, ao sol, à chuva, ao vento, ao frio e desolada na tristeza de ter que enfrentar o único sinal de alerta que ainda mantém vivo: a bebida. O álcool a aciona e todos os seus comandos já embrutecidos e desgastados e que funcionam mal e parcamente. Fala tropeçando nas palavras pensa muito e a palavra não chega à sua boca. Mal chegou aos trinta anos e numa explosão de generosidade entregou a bolsa família para sua filha menor, que vive tão somente disto. A filha tem uma renda para fazer o que quiser, do jeito que quiser, e diante do lúgubre exemplo materno, a tendência é seguir os caminhos da mãe. Lutamos muito para tirá-la do abismo da bebida, até que um dia entregou-se numa rodada de drogas, e pelo menos umas trinta pessoas transitavam por lá naquela tarde fatídica. Eis que uma facada atinge o seu companheiro ele acaba morrendo. Quem foi? Ninguém sabe… Até que na hora da morte ele falava o nome dela, insistentemente, e entenderam que ela era a autora do crime. Foi presa, foi solta, o processo correu até que um pedido de insanidade mental foi protocolado junto ao processo, entendido pelo juiz, ela não foi a júri popular. Foi absolvida, as provas de autoria eram tão frágeis que não convenceram o julgador. Ela foi absolvida, condicionada a internar-se num complexo médico estadual para se tratar. Ela andava livre, então, pelas ruas achando que tudo tinha acabado. Querendo deixar o vício, mas sozinha, sem ajuda, impossível. Foi então que um oficial de justiça a intimou para cumprir a pena: internar-se num complexo médico. Ordem dada pelo juízo, ordem cumprida. E foi assim que a vi debilitada na cadeia, vestindo a mesma roupa há dias, e em crise por falta da bebida. Chorando muito, querendo uma oportunidade para simplesmente voltar a ser um ser humano, igual a nós todos. Só Deus na causa!

Izaura Varella

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