Gaiola Dourada


Busque no meio dos objetos descartáveis, que estão há muito tempo no seu depósito de sobras e olhe bem cada peça que está aí esquecida. Uma velha bola, não serve mais para ser chutada, uma caixa de papelão com fotos antigas que nem vale a pena mais revolver tantas lembranças, livros velhos, amarelados, mal empilhados na prateleira, um velho vaso de cristal quebrado, mas por ser de cristal não se jogou fora, sapatos velhos, colchões esquecidos que só se tornam úteis quando as visitas extrapolam o espaço das camas da casa, um álbum da juventude onde os amigos escreveram mensagens de esperanças e de sucesso e que hoje nada mais dizem para o seu ego, um velho abajur, daqueles que se toca e a luz misteriosamente, se acende, e que agora, nem é mais sensível ao toque… Enfim, olhe bem, quem sabe ainda resta algum objeto que lhe encante. E no meio das bugigangas aparece um espelho esquecido no tempo e você se assusta ao olhar a própria imagem, esta imagem e é a sua imagem mesma, dos tempos áureos da adolescência… e agora chega de filosofar e volte a procurar algo que possa se encantar. E bem lá atrás da caixa de madeira, carregada de provas e trabalhos da faculdade, você vê uma gaiola dourada. Esquecida há tanto tempo nem se dá conta que o dourado é quase apenas uma lembrança. Tire esta gaiola dourada do meio daquelas tranqueiras e limpe cada fio de metal, de forma que a gaiola, além de dourada, fique também brilhante. A gaiola pertence à saudade e serviu para transportar debutantes de 15 anos, como se fossem pássaros leves para serem apresentados à sociedade na noite de um baile musicado por uma orquestra esquecida no tempo. Tire a gaiola já recuperada, linda, brilhante e perceba que há uma porta por onde você poderá entrar, e deixar-se ficar, como a ave que depois de se satisfazer com o alpiste descansa de olho fechado. A gaiola agora no meio do seu jardim lhe dá vários ângulos para serem observados; a grama recém cortada, o pé de manacá sustentando de rosa as suas últimas flores, a pérgula verde sombreada pelas ramas do maracujá, um vaso aqui e outro acolá, todos floridos de primaveras vermelhas. Entre na gaiola agora, e sinta o perfume do ar que balança os seus cabelos, não feche a porta da gaiola dourada, pois, pode correr o risco de não saber abri-la depois. Por dentro das grades você se sente um pássaro preso, e mesmo tendo o livre arbítrio de sair no momento que lhe aprouver, você se sente presa. Mas lá dentro também você se sente protegida dos embates decadentes dos programas eleitorais, mas ao por o pé para fora da gaiola dourada você se sente invadida. Que mundo que vive e não consegue se livrar das amarras e das decisões daqueles que lhe conduzem e falam por você, mesmo que você não concorde? Aí lhe invade um profundo sentimento de impotência. Está aqui e nada pode fazer, a porta da gaiola está aberta, pode sair na hora que quiser, a liberdade de decidir é plenamente sua, mas se sair da gaiola pode ser estilhaçada pela ponta de uma faca qualquer. Você não se sente protegida nem dentro e nem fora da gaiola. Agora sim lhe bate um desejo enorme de ser águia e voar pela amplidão azul do céu buscando a plena liberdade de ser feliz, sem depender de ninguém!

Izaura Varella, em 30 de setembro de 2018

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