Fábula do Tempo

Achei um velho livro de contos escrito por Malba Tahan, perdido na prateleira e passei a relê-lo. O autor relembrava uma lenda japonesa onde um casal de Deuses resolveu voltar para a Terra, por curiosidade, para observar como viviam os homens e com o objetivo de fazer com que fossem felizes. O casal chegou numa ilha maravilhosa cheia de rochedos, um lugar encantador. Foi muito bem recebido pelos homens habitantes da ilha e a Deusa resolveu então dar uma boa recompensa para o povo. Ela falando com a população descobriu que o que mais angustiava as pessoas era a perspectiva da morte. Isto trazia angústia e medo e que a morte era a consequência do passar do tempo e nada poderiam fazer para detê-la.

A Deusa falou com seu companheiro para dar à população a graça do tempo não mais passar para aquela gente. Estava, portanto, abolido o ato de morrer. Assim, o tempo não passou mais para o povo, todos ficaram exatamente do jeito que eram, vivendo felizes e tranquilos.

Passado certo tempo os dois Deuses ouviram um rumor ao longe, uma multidão fazendo protesto ia chegando à volta deles. Pararam e ouviram o protesto da multidão de JOVENS que diziam: “A decisão dos dois sobre o parar do tempo foi um grande erro, um grande castigo. Queremos viver no tempo de novo, pois, queremos chegar à idade de crescer, casar, ter filhos, constituir uma família. Que adianta viver sem sentir passar a vida?”.

Os HOMENS DE MEIA IDADE também reclamaram: “Se o tempo não passa a vida é triste e monótona, queremos ver os dias passarem de novo, pois, queremos ver nossos filhos crescidos, trabalhando felizes.”

E os VELHOS falavam: “Desejamos também que o tempo passe, pois, só com o passar dos anos veremos a alegria de nossos filhos e nossos netos.”.

Os Deuses irritados esqueceram que a indulgência faz parte da justiça e com rancor, se zangaram com a ingratidão. O povo pediu, e eles atenderam e depois rejeitaram aquilo que os Deuses haviam concedido. E resolveram fazer de novo aquilo que o povo queria e pedia. Queriam que o tempo passasse de novo, pois, então o tempo passará. E por castigo disseram: “O tempo vai continuar passando, mas sempre passará ao contrário dos vossos desejos. O tempo será sempre rápido e fugaz nas horas felizes e passará lento, muito lento, nos períodos de dor e tristeza.”

E o castigo caiu impiedoso sobre os homens.

Como o tempo passa rápido, eu não brigo com o tempo. Ontem mesmo eu era uma menina, hoje as meninas netas passeiam á minha volta. Ontem mesmo eu estava numa sala de aula, animada e crendo na minha profissão e hoje meus alunos que ajudei a ensinar e a viver a vida, ensinam seus filhos e netos a viverem a sua própria. O tempo implacável não perdoa, mas não devo nada, absolutamente nada para o tempo. Porque afinal ainda estou com dezoito anos!

Izaura Varella

Advogada e Professora

Cianorte, 18 de fevereiro de 2018.

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