DESEJOS

DESEJOS

Se você não rompe com suas amarras enquanto está vivo, você acha que fantasmas o farão depois?” (Kabir)

Desejo que a porta se abra e possa vislumbrar a cor clara do dia que mal desponta no horizonte, e que esta luz em sendo forte, não agrida os sentidos. Desejo ao passar pela escola que há tempo foi deixada para trás possa ver as crianças em fila cantando o Hino Nacional, com a mão no peito e o coração inflado de emoção. Desejo que a chuva venha molhar a grama acabada de plantar e com ela, e em sua florescência não traga junto ervas daninhas, porque estas eu já as trago no coração de sobra. Desejo que aquela amiga que adoeceu possa sentir o carinho com o qual é amada e muito amada, e que sua ausência seja apenas um engano do destino em nossa vida. Desejo que os filhos voem pelas asas dos sonhos e que velem para sempre a honestidade e os valores morais que lhes foram passados e assim desejo também que aos netos, pérolas brancas, anulem os preconceitos, e que nunca percam a dignidade de ser o que são, a exemplo dos pais e dos avós e que corram as raias da corrida da vida, para no final da competição possa se sentir vencedores mesmo sem estar no primeiro lugar. Desejo que os amigos que já se foram definitivamente, sintam a felicidade, estando onde estão, do bate papo na roda de amigos pelas madrugadas da juventude. Desejo que aquela menina da adolescência, ingênua, pudica, tímida venha de volta para surpreender o amado nas noites sem sono. Desejo que as cãs dos cabelos, decorrentes do enfrentamento com o tempo, possam novamente ter vivas cores brilhantes. Desejo que as águas do riacho na qual se banhava a adolescente sem vícios possam continuar descendo as cachoeiras sem nunca esgotar a água da fonte. Desejo andar a pé no amanhecer, ao sol do meio dia, no adormecer da noite, sentir a brisa tocando a pele, sentir-se liberta, sem medos, e no breu noturno, caminhar sem temores, crente de que a vida é linda e generosa quando não se busca atalhos que perturbam o espírito. Desejo sentar no banco da praça e olhar ao longo das ruas, sem vincular o tempo com burburinho dos carros. Desejo que a polícia passe ao largo, tão somente para defender uma brasileira que sempre quis o melhor para seu país. Desejo ir para casa plena e consciente mesmo depois dos desencontros, mesmo depois da nostalgia, ser plena, enfim. Desejo que o complexo do poder não seja fragilizado, que impulsione às alturas, entretanto, na busca do alto da montanha, não cause feridas ao redor. Desejo que o mistério de sempre estar apaixonada pela vida seja permanente e amenize o processo doloroso da individuação, da busca honesta por si mesma. Desejo dar as mãos ao doce companheiro de uma vida toda e ficar à sombra acolhedora das sibipirunas da avenida e deixar as horas passarem sem ter um relógio para controlar os minutos e as horas e adormecer em seus braços para sempre!

Izaura Varella

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