De volta à casa!

Trata-se de uma jornada através dos mais arcaicos, intimidantes e convidativos dos mares: nossa própria alma!” (James Hollis)

Às vezes me assalta o desejo de voltar para casa, como aquela menina de uniforme azul, blusa branca de manga longa e gravata, saia pregueada abaixo do joelho, medindo 30 centímetros do chão até a barra da saia, sapatos pretos colegiais com meia grossa, que se acabava no começo da coxa, carregando uma maleta cheia de cadernos e esperando a irmã salesiana abrir o portão do colégio para eu entrar. Sim, porque no colégio da minha infância, ninguém entrava pelo portão adentro, se não fosse pelas mãos das irmãs de cabelos cobertos com um manto azul, revestido de tecido branco engomado, de onde surgia a face muitas vezes enrubescida pelo calor da vestimenta, saias longas e raramente, sandálias nos pés. Ao entrar no banheiro das meninas, logo se via se via uma placa enorme com os dizeres “DEUS ME VÊ”. O desejo de ouvir o sino da escola tocar e por-se em fila com as meninas por ordem de tamanho, me devolve o desejo de tomar distância da colega da frente (será que as crianças de hoje sabem o que é tomar distância?) e perfiladas cantar o Hino Nacional, que aos quatro anos eu já sabia ‘decor e salteado’! E perfiladas olhar para a Irmã Jaíra que subia num escabelo e ainda ficava baixinha e dar as ordens e os avisos do dia.” E assim, todas nós ouvíamos uma história cívica, outra religiosa, outra de bons modos, outra como amar o próximo e principalmente, a família, e também as ordens que eram dadas de poder ou não poder fazer alguma coisa, enfim, pura aula de moral e ética…

Às vezes entro pelo pátio cimentado do colégio cercado de flores que se abriam constantemente, ao sol, e vejo a mesma menina saltitando com uma bola na mão, numa dança de jogar bolas e pegar bolas da outra amiga, durante as aulas de educação física, movimentando o olhar para o céu azul e cada bola caída um sinal de desapreço… Nem pensar em fazer amizade com as alunas que estudavam comigo, que eram internas na escola, aos cuidados absolutos das freiras, isoladas, mal as víamos, vestidas com uniforme diferente, cuidadas com zelo e vigiadas constantemente. No final da tarde entrar pela pequena capela onde a Virgem Maria Auxiliadora tinha um altar só para ela e lá me ajoelhava para fazer o chekup do dia, sem remorsos, com remorsos, com culpa e sem culpa, agradecia a vida, agradecia por ter esta escola fazendo parte da minha vida, e agradecia a meus pais, mesmo que faltasse às vezes o que eu queria, com suas broncas e seus castigos.

E que liberdade se sentia ao sair do colégio ao bater do sino, no término das aulas, livre andar pelas ruas sem medo, (assaltos, roubos e furtos eram coisas de cidade grande), e falando alto, rindo, fazendo algazarra, subindo pelas calçadas, andando alguns quilômetros para chegar até em casa e chegava! Nenhum pai vinha buscar seu filho na escola, nem em dias de chuva, carro era luxo e nada melhor do que uma sombrinha para se esgueirar dos pingos gelados e assim se voltava para casa. Por isto quero voltar para casa, para aquela casa que ficou no passado, que fez parte de meus sonhos de criança e que fechou suas portas para o nunca mais!

Izaura Varella

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