AQUELE GAROTO DE ONTEM…

Ela estava de carro, ultrapassando outro, adequadamente, em lugar lícito, quando um garoto de motocicleta, sem capacete e na contramão quase atropela o carro dela. A senhora parou surpreendida, assustada com o quase acidente, com a ousadia do garoto. Bastou indagar se ele sabia o que estava fazendo para que o garoto despejasse impropérios em cima da senhora, chamando-a palhaça, vagabunda e outros elogios pouco recomendáveis. A condutora do veículo pasma demorou em entender que todos aqueles insultos estavam sendo dirigido a ela mesma. Quando compreendeu, o garoto já tinha ido embora. Ele estava errado e ela só fez uma pergunta diante do grande susto que levou e com a possibilidade de acontecer aí um grave acidente.

Esta é a nossa juventude criada sem limites. Que não admite normas, não admite ser repreendida, não aceita que seja tocada em seus conceitos mal formados. O garoto estava errado e não suportou uma pergunta e já foi deixando que de sua boca saíssem cobras e lagartos, demonstrando claramente como anda a sua educação recebida em casa. O garoto não soube se conter, não teve a tolerância tão necessária para admitir seu próprio erro.

Ele será o pai de família de amanhã e ninguém pode dar aquilo que não tem. Poderá ser até um empresário ou quem sabe um político, no futuro, quem sabe… Já tenho pena da sua futura família que vai ter que aturar uma pessoa embrutecida, sem paciência e sem capacidade de admitir seu próprio erro. È um futuro agressor da Lei Maria da Penha. É um forte candidato para hospedar-se na mansão da Rua Monte Verde. Lá tem conforto, tem várias refeições ao dia, dorme-se em colchões king size, respira-se o ar mais puro do Cinturão Verde. No frio é ainda melhor por que os espaços são muito grandes e muito bem aquecidos. No verão pode-se desfrutar de um ar condicionado moderno e estar num lugar onde cabem 40 pessoas, que embora duzentas se amontoam, não impede que a brisa da manhã entre sutilmente no ambiente decorado e confortável. Lá só tem um defeito: os outros hóspedes. Se este garoto ousado falar além do seu próprio limite alguém vai limitá-lo com um suave carinho no rosto. Um carinho que deixa marcas na pele e na alma.

Aquele garoto malcriado levou sorte porque aquela senhora pertence à geração que dizia obrigado e pedia desculpas. Que respeitava os mais velhos venham eles de onde viessem e que estranhos deveriam ser tratados com educação. Que pedia a benção de seus pais quando acordava, que sabia respeitar o seu semelhante. Ela é daquele tempo que as diretoras de escola davam transferências ao aluno sem educação e desordeiro e isto era politicamente correto. Ela é do tempo que a educação começava na família e que escola era somente um complemento da família.

Depois que tudo passou ela se lembrou que poderia ter anotado o número da placa da motocicleta para poder identificar o moleque malcriado. Contudo, quem iria garantir que ao descobrir seus pais não teria ela outra decepção? Certamente, a mãe, pelo filho que tem, não iria admitir que falassem mal de sua cria e o pai ausente talvez achasse que seu filho reagiu porque tem que ser macho. Enfim, estamos encontrando isto tudo o dia por aí. Professores tem medo de seus alunos e até aquele menino de 4 anos que levou umas palmadas de seu pai e freqüenta a creche já sabe o que é o Conselho Tutelar e prometeu denunciar o seu pai quando ele o repreender outra vez. As leis estão sendo interpretadas ao avesso e os valores estão invertidos.

Eu diria como Margarete Drabble: “Quando nada é certo, tudo é possível!”

Izaura Varella

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