A ROSA VERMELHA DO VESTIDO DE NOIVA

Ela estava em plena juventude e o casamento estava preparado; logo, logo iria para o altar, ao encontro daquele que seria o chefe da família, seu par e provedor. Estávamos lá pelos idos de 1.970, e no século passado, o casamento era um ritual muito importante e valorizado. A moça se conservava virgem para as suas núpcias, nada de experiência sexual antecipada, que se limitava tão somente aos beijos e toques de mãos. Nunca o casal se via só, sempre alguém estava por aí, em torno deles. A virgindade de uma mulher era condição para um bom casamento e o casamento teria que durar para sempre. A castidade era fundamental e a sociedade não tolerava permissividade; sociedade conservadora e fiel aos seus princípios; e se o sinal fosse avançado, e a jovem, na casualidade da vida, ficasse grávida? Era tão somente escarnecida, mal falada e ficava na “boca do povo” para sempre. Nestes tempos que não se vão longe, o patrimônio sexual de uma mulher, a sua virgindade era uma ”pequena garrafa de vinho de safra única, rótulo feito à mão com a finalidade de poder ser degustada em uma única taça, em refil”. A joia intocada da mulher deveria passar primeiro pelo casamento, e desfrutada dentro do silêncio das paredes, eis que seu corpo não lhe pertencia, e seria para sempre do homem destinado a casar com ela. Se houvesse a virgindade, tal qual era cultuada era uma moça de juízo e admirada pelo seu recato, prudência e até um pouco de santidade. Sexo era um comportamento sujo, destinado à reprodução da espécie humana. As mulheres que transavam antes do casamento eram consideradas fúteis, fáceis, sem valor algum e recusadas para o casamento. Os tempos mudaram e como! A invenção da pílula anticoncepcional mudou a vida, a história e o preconceito com relação à mulher. E quem inventou a pílula foi um homem.

Mas, bem me lembro da noiva simples que pediu ajuda para preparar-se para o dia de seu casamento, dia muito esperado por ela, nos idos dos anos 70. Ela queria casar e a sociedade era carregada de preconceito. O vestido branco que vestia e conduzia a virgem noiva ao altar deveria ser branco, totalmente branco, significando que este patrimônio feminino era intocável pelo homem até o momento da consolidação dos laços matrimoniais. Alguém a ajudava a vestir-se, tão ingênua quanto à noiva intocada, mas, ela vinha de um meio simples, sem requintes e sem fortuna. E assim foi confeccionado o seu vestido: tão simples e sem nenhum arranjo, a seda branca desabava reta sobre seus pés, cobria-os, simplesmente, sem nenhum enfeite que chamasse a atenção. A pessoa que a ajudava a vestir-se resolveu, então, melhorar a perfomance do pobre vestido de noiva. Buscou entre seus pertences uma pequena rosa branca atada a uma rosa vermelha, costurou de um lado da cintura e lá se foi a noiva simples, agora requintada e elegante pelo arranjo colorido, para a entrada da igreja. Linda, majestosa, cheia de esperança, a noiva entra na igreja em busca do seu amado e os convidados curiosos começam a cochichar: Como? Rosa vermelha na cintura? Ela não é mais virgem? Que escândalo é este? Precisa, assim, demonstrar o pecado já cometido, para todos?

O preconceito tomou conta da cerimônia e da festa simples e serviu de comentários maldosos por algum tempo. E a noiva de rosa vermelha na cintura ficou falada para sempre!

Izaura Varella

Cianorte, em 1º de Dezembro de 2.019

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