A omissão de não se incomodar com o outro


Não me incomodei quando um tresloucado entrou na casa de uma pessoa conhecida, fez refém a família, trancando-a no banheiro e levaram todos os objetos da casa. Não percebi e não me incomodei, afinal, não fio na minha casa que entraram e nem minha família que sofreu horrores dos algozes. Noutro dia alguns outros, vestidos de roupas conhecidas de uma empresa pública, pediram para entrar no quintal do vizinho, pois, queriam fazer alguns reparos. Ingenuamente, acreditando nos homens bondosos e trabalhadores que batiam na porta e só queriam ser prestativos, a vizinha os deixou-os entrar, eis que se torna refém e na mira de um revólver entregou tudo que tinha em sua casa. Não dei conta de saber detalhes, afinal não era comigo e sequer prestei solidariedade.

Não demorou muito tempo, me levaram para o fundo do quintal da cadeia para que eu visse um fato curioso e me deparei com um homem pendurando numa corda, ainda de língua de fora e olhos arregalados, inerte e sem vida. Lógico que me assustei no momento, mas passada aquela hora, não mais me incomodei com a história: não era meu conhecido e nenhum vínculo eu tinha com ele. então esqueci logo a cena do enforcado. Foi assim também com aquela mulher ainda jovem, que apareceu na minha janela com os dois olhos inchados e roxos e hematomas pelo corpo, depois de uma agressão física violenta de seu convivente. Mas não era comigo a dor dela e cuidei de encaminhá-la para o hospital e me esqueci do resto. Também aquele traficante de drogas, viciado e para manter o vício, era também comerciante do ilícito e me abstive de ajudá-lo, deixei por conta da justiça, que se fez, fria simplesmente, mas o homem de Deus que estava dentro do viciado eu não toquei.

Assim vão as caridades que fazemos achando que estamos de fato sendo caridosos, e quase sempre as pessoas passam pelas nossas mãos, passam mesmo, sem que a gente se comprometa a ajudar todos a ter uma vida melhor. Nem sempre nos damos conta que temos uma SOMBRA, outra versão de nossa alma e que quando afastamos de nós, flui a generosidade, flui a cura, flui o amor pelo outro e nos tornamos tolerantes porque aprendemos a não julgar quem a gente ajuda. A omissão de não se incomodar com o problema do outro nos torna cegos e ao mesmo tempo indiferentes. Como ser indiferente à dor do outro? Um dia a dor poderá ser nossa e quem virá em nosso socorro? O outro, o próximo, virá a mim, com a mesma indiferença, porque o meu problema não é parte do problema dele. A omissão do socorro nos deixa egoístas e insensíveis. Entrando em contato com a minha própria dor, é possível ouvir a dor do outro, porque quando a alma dói, tudo dói ao redor e a ferida aumenta; Se tivermos complacência chegamos perto da Verdade do outro. O homem já tem seu carma de nascer sozinho e na solidão, e é muito mais difícil nascer do que morrer, mas se morre também de solidão. Vi meu amigo lançar-se do terceiro andar e na sua solidão interior quebra-se ao chão. E depois nos damos conta que nada fizemos para detê-lo.

Izaura Varela

Em 18 de novembro de 2018

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